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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Mais uma oportunidade de conversarmos sobre parto


Compartilhando feliz mais um fruto do meu trabalho. 
Acredito que é nos espaços de diálogo e reflexão que podemos encontrar os caminhos que queremos trilhar em conjunto. 
Estou muito realizada com o lugar que encontrei para contribuir com isso, que é justamente o de criar esses espaços!


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Sobre partos e bruxarias: ainda o Caso Madrecor

Era uma vez...

Ano de 1587, condado de Dilligen, na Baviera (hoje, Alemanha)
Nome: Walpurga
Profissão: parteira (por 19 anos)
Processo: condenada pela Igreja Cristã por praticar bruxarias e fazer sacrifícios com bebês
Desfecho: Sua casa foi invadida, seu "livro de feitiços" confiscado, ela sofreu torturas e teve sua mão direita decepada (com a qual fez o juramento de parteira) antes de ser queimada viva na fogueira.

Era ontem...

Ano de 2014, cidade de Uberlândia, Brasil
Nome: Simone, Luciana e Patrícia (nomes fictícios por questão de preservação da imagem das minhas amigas, rs....)
Profissão: médicas obstetras
Processo: condenadas por um Hospital por praticarem atos ilícitos e inseguros dentro do seu estabelecimento
Desfecho: Proibição da assistência humanizada ao parto dentro do Hospital, ameaça de descredenciamento das mesmas do seu quadro de profissionais por descumprirem as normas da Instituição, alegação verbal, em audiência na Promotoria, de que as médicas não são bem-vindas e que ninguém as quer ali nem o tipo de assistência que elas praticam dentro do Hospital deles... “Nós somos uma empresa privada, que visa lucro e temos o direito de fazer o que a gente quiser... por que vocês não procuram a turma de vocês e nos deixam em paz? Por que a insistência em oferecer isso no nosso hospital? Isso não diz respeito a nós, não somos SUS e não precisamos seguir nenhuma regulamentação do Ministério da Saúde” (etc e tal...).

Parece ficção científica, poderia ser um filme de terror, mas em ambos os casos, os relatos são parte do registro histórico e refletem a visão que criamos culturalmente frente ao universo do nascimento.
Nossa atual compreensão do fenômeno do parto e nascimento reflete exatamente a influência do pensamento cristão na época de Walpurga: a imagem da mulher como ser puro e assexuado, o corpo como algo sujo e mundano e que precisa ser negado, a soberania machista e controladora. Para impor o pensamento cristão, era necessário passar o controle sobre o nascimento aos homens (parceria da Igreja com a Medicina) e desacreditar a sabedoria das mulheres (parteiras), sobrepor a razão ao instinto e à emoção. Era ainda preciso fragilizar o corpo das mulheres, incapacitá-las e purificar o nascimento desassociando-o dos órgãos sexuais. Como fazer isso? Com ameaças, com medo e terrorismo, com violência e com controle social: quem fugisse à regra seria condenado e executado... Muitas foram as mulheres queimadas...

Ontem, aconteceu uma Audiência no Ministério Público Estadual, em Uberlândia, sobre o caso da proibição no tal Hospital Hospital e Maternidade (leia o Termo da Audiência aqui). Um encontro entre Mulheres (inclui aqui também profissionais e homens que apoiam a causa, éramos 7 mulheres e 1 homem) e os representantes do Hospital (4 homens e 1 mulher) para tentar chegar a um acordo sobre a necessidade do mesmo aceitar as gestantes que desejarem ter uma assistência humanizada ao parto.

O Hospital, mais uma vez, se mostrou insensível ao assunto, irredutível à possibilidade do diálogo. Isso ficou claro pela postura do advogado do Hospital, que gritou durante 3 horas e fez questão de frisar que “não estava nos ofendendo até porque nem sequer estava dirigindo o seu olhar para nós.” Sim, ele falava de nós, nos interrompia, nos chamava de mentirosas mas NÃO NOS OLHAVA, como se não fôssemos dignas de ser consideradas na conversa. Aliás, ele também questionou várias vezes o porquê de haver outros profissionais ali, do nosso lado, que não eram associados ao Hospital. Até tentou expulsar da sala o pediatra que nos apoiava e desmentia as alegações incabíveis deles, alegando que ele não tinha nada a ver com o caso. Nesse momento, o Promotor foi bem sensato, "abaixando a bola" do gritador, reforçando que o pediatra era muito bem-vindo e dando espaço e destaque para a sua fala.

Em suma, o Hospital pintou um quadro horroroso do que eles imaginam ser o parto humanizado: falas distorcidas, assustadoras e irreais (de “comedoras de placentas” que se esfregam em todas as paredes do Hospital e que depois se trancam no quarto cheio de fezes com o bebê roxo, com uma médica que recusa ajuda da enfermagem e do pediatra e que ficam tirando fotos enquanto o bebê sofre...).

E, pasmem: o Documento de inspeção realizado pela Vigilância Sanitária, a pedido do Promotor ao Hospital, foi realizado baseado nas informações colhidas com os mesmos representantes  do Hospital que estavam lá na Audiência!! Ou seja, eles fizeram a inspeção baseados na versão horrorosa que lhes foi contada... Até eu não ia querer parir sob as condições horripilantes que eles pintaram... 

“(...) a bruxa ganhou uma poção de unguento (...). Com essa poção, Walpurga dizia ter assassinado mais de 40 recém-nascidos, todos de famílias cristãs. Quando não morriam intoxicados, eram asfixiados ou tinham seus crânios esmagados (...). Ela também realizava missas negras e rituais do mal (...).” (Revista Mundo Estranho, outubro de 2014).

Eu, mulher, profissional e defensora da humanização do parto e nascimento, senti na pele a dor de Walpurga e tantas outras “bruxas” condenadas durante a Inquisição. Elas não se adequaram ao novo perfil de mulher, elas não se submeteram ao poder, elas não se calaram... Ontem, a cultura ainda dominante, da hegemonia do paradigma do parto tecnocrático, hospitalocêntrico e medicalocêntrico, se mostrou presente na Audiência, personificada nos representantes do Hospital. Gritos, deboches, falsas alegações, atravessamento de nossas falas... é assim o jogo deles. E, por mais que a gente não se interesse por esse jogo, sentimos suas consequências. Todas nós saímos de lá com a sensação de termos sido agredidas, sentimos na alma um pouco do que lutamos diariamente para combater: a violência obstétrica.

Quando um Hospital mostra seu desconhecimento sobre o que é a assistência humanizada ao parto, quando ele diz que é uma empresa privada e que sua preocupação é o lucro e não as diretrizes e regulamentações do Ministério da Saúde, quando ele pede que fique bem claro e registrado na Ata da Audiência que é definitivamente contra a assistência humanizada ao parto e que irá continuar realizando apenas “partos desumanizados”, ele está praticando um ato de violência contra todas as mulheres e o direito de serem respeitadas em suas escolhas.

Não foi fácil testemunhar e participar desse momento. Três horas intermináveis, difíceis, mas não desperdiçadas. Apesar do cansaço, sinto que continuamos avançando, ganhando nosso espaço e nos fazendo visíveis frente ao Sistema. De tudo, agradeço ao Promotor, que se mostrou disposto a nos ouvir, que também segue regras e precisa acatar o que a Vigilância Sanitária (órgão técnico responsável pela vistoria) diz sobre o assunto, e que tentou a todo momento priorizar o interesse imediato dos bebês e gestantes que estão para nascer, lhes assegurando o direito ao parto humanizado. Quanto às demais gestantes e o futuro da assistência humanizada em Uberlândia, ele garantiu que o processo não estava encerrado e que está investindo esforços para compreender mais sobre o assunto e estender a questão a todos os hospitais da cidade. Assim esperamos.

E sobre os próximos passos...

Ontem mesmo acrescentamos mais documentos ao caso, estendendo nosso pedido para a regulamentação do parto humanizado a todos os hospitais da cidade. Documentos obtidos com o apoio imprescindível da de uma associação nacional (Artemis) que visa a atuar como aceleradora social da igualdade de gênero, realizando projetos que promovam a autonomia feminina e a erradicação de todas as formas de violência contra a mulher (ver no final deste texto o Requerimento completo dessa associação encaminhado para todos os Órgãos Federais e Municipais cabíveis quanto às devidas providências frente à proibição do parto humanizado em Uberlândia).

Solicito gentilmente a toda a mídia e pessoas que se interessem em divulgar o assunto, que leiam atentamente esses documentos antes de publicarem suas matérias com as justificativas oficiais do Hospital quanto à proibição do parto humanizado... Lembrando que Assistência Humanizada ao Parto não é uma modalidade de parto! Atendimento Humanizado ao Parto é POLÍTICA NACIONAL DE COMBATE À MORTALIDADE MATERNA E NEONATAL!

E, para o advogado do Hospital, gostaria de destacar que gritos e sarcasmo podem fazer parte do seu teatro para inibir os “adversários” e marcar sua presença, mas, para mim, parece mesmo é mostrar uma insegurança danada, um medo de se expor e de se permitir sentir... de ser humano. Sinto muito que você precise disso para sobreviver e que tenha que afiar suas garras para lutar pelo “seu paciente”. Às vezes, precisamos reconhecer os limites, aceitar que nem todas as intervenções para manter um paciente vivo se justificam... que algumas só pioram o quadro e perpetuam o sofrimento... Como psicóloga que trabalhou vários anos com cuidados paliativos, aprendi na pele que, em alguns momentos, aceitar nossas fragilidades, reconhecer nossos limites, nos permitir viver o momento e abrir o coração para enfrentar de forma lúcida a proximidade do fim é bem mais honroso, ameno e sereno do que ficar lutando, esbravejando e nos desconectando do essencial. Se o "seu Hospital", enquanto instituição privada que se propõe a prestar um atendimento à saúde, está na "UTI em estado grave", não seria a hora de abrir seu coração, de rever sua trajetória e valorizar a parte bonita de sua história (inclusive com o tanto de parto humanizado que já realizou)???* Se o Senhor Advogado conseguisse me escutar por pelo menos meio minuto, eu lhe diria: lute, mas lute pelo que vale a pena ser vivido!

Minha eterna gratidão ao grupo de profissionais e mulheres de Uberlândia que estão dando um exemplo de cidadania, sabedoria e união, sentimentos e ações tão sintonizados com a causa que estamos defendendo... E ainda minha reverência a Walpurga e a todas as outras parteiras queimadas vivas naquela época e na atual...



 * Na audiência o Hospital comunicou que irá fechar a sua Maternidade em fevereiro de 2015. 




sábado, 27 de setembro de 2014

Manifestação em favor do Parto Humanizado: Um ato de Amor

E hoje aconteceu a Manifestação na frente do Hospital Madrecor em Uberlândia. (Quem quiser saber mais sobre o que motivou essa Manifestação, veja aqui). O dia amanheceu nublado, coisa rara ultimamente por essas bandas. E isso foi muito bom para aliviar o calor durante o nosso encontro na porta de entrada do Hospital. As pessoas foram chegando aos poucos, roupas brancas, estampas coloridas com mensagens de nascimentos amorosos e carregando alguns acessórios que logo transformaram e alegraram o ambiente. Várias fotos de partos humanizados que aconteceram justamente nesse hospital foram afixadas nas grades de entrada junto com balões e fitas coloridas. Quem ia chegando ia ajudando.






Foi lindo ver os bebês e as crianças chegando... E quanto bebê! Carrinhos enfeitados, slings, os maiorzinhos caminhando por conta própria. Os que estavam dentro das barrigas sendo massageados por belas pinturas... Um lindo encontro! Uma linda festa! E mesmo quem não se conhecia pessoalmente, se reconhecia... por um mesmo ideal, por uma conversa no face, por um relato ou video de parto compartilhado... E era mesmo dia de se re-encontrar!




E, de repente, éramos uma imensidão de gente... Acho que umas duas centenas... E queríamos nos agrupar, mas o Hospital não permitiu que a gente usasse seu amplo estacionamento e, como a Settran (que depois nos ajudou a bloquear a rua), o jeito foi alguns papais e carrinhos nos ampararem.


Então, uma grande roda se formou, circulando uma energia de amor, de agradecimento, de boas energias... e começamos a cantar, guiados por uma bela voz... e cantamos, dançamos, nos emocionamos... e deixamos nosso recado: Queremos continuar trazendo nossos filhos da forma mais segura, amorosa e respeitosa para eles e para nós, o parto humanizado permite isso e esse grupo é a prova disso, e esse hospital era o grande protagonista dessa história em nossa cidade, não nos abandonem!!!
Discurso esse endossado por algumas presenças ilustres nesse dia marcante: como uma doula bem conhecida da Humanização de Brasília, uma representante do Conselho Federal de Psicologia, representantes do Diretória Acadêmico do Curso de Enfermagem da UFU, além de muitos profissionais da saúde defensores da causa, inclusive médicos de diversas áreas!





No fim, um abraço coletivo do grupo simbolicamente abraçando esse Hospital e o Parto Humanizado e um agradecimento a todo esse tumulto e reviravolta criada por essa nova gerência desse hospital. Obrigada, vocês provocaram esse grande encontro, vocês despertaram esse amor e essa força, de nos mostrar que somos muitos. Que muitos são os bebês que estão felizes, saudáveis e crescendo de forma amorosa desde os seus nascimentos e que estaremos juntos nos momentos tumultuosos para lembrar do que vale a pena ser vivido.

Reforçando que essa manifestação foi uma pequena ação das várias que virão. Por que nosso objetivo é reivindicar o nosso direito de escolha pelo parto seguro e humanizado, reconhecido e respaldado pela Medicina Baseada em Evidências e preconizado pelo Ministério da Saúde. Parto Humanizado é seguro, é legal e é respeitoso. E, semana que vem, mais um passo... Audiência no Ministério Público com os Diretores desse Hospital. Até lá!



Ah! Muitas e muitos foram os que ajudaram intensamente na organização dessa manifestação de hoje, um grande coletivo se formou... e espero que saibam que somos eternamente gratos. Reconhecemos que o Movimento é de todos e isso é que possibilitou a beleza que vivemos nessa tarde de sábado, 27 de setembro de 2014.

Essa foto é simbólica de um grupo muito maior... Valeu!




quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Sobre a proibição do Parto Humanizado em Uberlândia

Era uma vez uma cidade de médio porte (700.000 habitantes), promissora e em franco desenvolvimento e crescimento... Era uma vez uma cidade do Triângulo Mineira famosa por seu moralismo e tradicionalismo do interior... Era uma vez uma terra fértil, gentil e próspera... Era uma vez Uberlândia e sua diversidade...
Nessa cidade, eu moro e me invento há 34 anos.  E nessas últimas semanas me vejo completamente absorvida por um redemoinho que passou por aqui e levantou poeira, fantasmas e uma triste realidade: nossos hospitais particulares (depois eu conto sobre o sistema público!) desconhecem o PARTO HUMANIZADO! E pior! Proíbem em suas dependências que as mulheres tenham esse direito de escolha garantido.
Dia 09 de setembro de 2014, o único hospital particular da cidade que aceitava que algumas médicas conscientes e envolvidas com seu trabalho pudessem realizar uma assistência obstétrica humanizada e em conformidade com todas as diretrizes e regulamentações dos Órgãos de Saúde de referência Nacional e Internacional (Organização Mundial de Saúde, Ministério da Saúde, Política Nacional de Humanização...) decidiu proibir o Parto Humanizado... assim, sem nenhum argumento coerente... meio que alegando o incômodo dos outros pacientes com os “gritos” das mulheres e a falta de estrutura adequada e ainda colocando no meio palavras sobre atos irregulares e ações judiciais contra o Hospital.



Mas ao fazer isso, ele relacionou de forma errada (e tenho certeza que proposital), essa irregularidades e até riscos de erros médicos e processos, com o parto humanizado. SACANAGEM! E ao fazer isso, ele nos dá o direito de resposta, porque as irregularidades do Hospital nada têm a ver com os partos e sim com cobrança indevida (e a parte) dos pacientes com convênio médico... tem uma baita ação na Justiça por causa disso e é muito feio omitir esses dados da conversa!!! Já que querem falar das irregularidades, que falem quais são!!! Ah!!! E sobre os riscos para os bebês e futuros processos, cabe DESTACAR QUE OS PROCESSOS QUE EXISTEM CONTRA O HOSPITAL RELACIONADOS A PARTOS SÃO TODOS DE CESÁREAS OU PARTOS NORMAIS CONVENCIONAIS (os quais eles querem manter!!!) e AINDA NÃO EXISTE NENHUM PROCESSO NA CIDADE CONTRA NENHUMA DAS MÉDICAS QUE REALIZAM ATUALMENTE O PARTO HUMANIZADO NA CIDADE. Então, senhores diretores do Hospital Madrecor, se querem evitar danos e riscos às mulheres e bebês, façam o favor de se atualizarem e buscarem informações respaldadas na Medicina Baseada em Evidências! Estudem! Conheçam primeiro o que é o parto humanizado, como é a assistência e quais são as porcentagens de “sucesso”, antes de divulgarem informações truncadas!
 (Aqui alguns artigos científicos e documentos sobre o assunto)

Sobre a falta de estrutura adequada para o parto humanizado... Isso aí até que eu concordo, porque realmente o Hospital e Maternidade Madrecor NÃO ESTÁ REGULAMENTADO PARA FUNCIONAR COMO MATERNIDADE!!! (Assim como nenhum outro hospital da cidade). E precisamos falar sobre isso.

Desde 2008, existe uma Resolução Nacional, a RDC-36, que dispõe sobre Regulamento Técnico para Funcionamento dos Serviços de Atenção Obstétrica e Neonatal, com a qual qualquer Hospital que pretenda oferecer assistência obstétrica deveria estar de acordo. E nela, o parto humanizado, a sala PPP (pre-parto, parto e pós parto), a presença do acompanhante de escolha da mulher, a assistência humanizada ao bebê e todo o resto que vocês estão querendo proibir, está contemplado... Vale dar uma lida toda semana, para ver se abre alguma possibilidade de diálogo e coerência no discurso! E a RDC-36, é só o começo! Hoje existem várias portarias e estratégias recomendadas pelo Ministério da Saúde que estão todas diretamente envolvidas com a Humanização do Parto e Nascimento e todas com respaldo científico garantindo que a assistência individualizada, a não intervenção instrumental ou medicamentosa sem necessidade, o respeito ao processo fisiológico, o ambiente acolhedor e a presença de pessoas de confiança da mulher e amorosas reduzem (E MUITO) o risco de complicações durante o nascimento.

Redução de mortes maternas e neo-natais, vocês adoram falar sobre isso e apesar do excesso de cesarianas, esses índices continuam altos!!! Proponho a gente conversar com estatística, senhores diretores das Maternidades de Uberlândia. Topam? Pegamos o número total de nascimentos, separamos os humanizados, das cesáreas eletivas e partos convencionais (adorei essa denominação, rs) e comparamos as porcentagens das complicações... Vamos ver quem ganha??? Não estou nem sugerindo uma pesquisa de satisfação das usuárias, mas se quiserem, tb podemos acrescentar. Lembrando que em nenhum momento eu disse que não existe risco no parto humanizado... é claro que existe e não o descartamos, lidamos com o evento de forma consciente, com todo suporte técnico e atenção que o mesmo requer, e talvez até por isso, o risco pode ser minimizado e identificado rapidamente... PARTO HUMANIZADO NÃO É PARTO DESASSISTIDO! NÃO É PARTO SEM EQUIPE DE SAÚDE! NÃO É PARTO SEM ESTRUTURA! NÃO É PARTO COM DOR!!! É um parto com muito acompanhamento e assistência, praticamente o tempo todo, mas que os recursos e intervenções só são utilizados se necessário, depois de avaliação individual e delicada do caso e com o consentimento das pessoas mais interessadas na saúde e bem estar do processo: a mulher, seu acompanhante e o bebê. E se for o caso de fazer algum procedimento (incluindo uma cesárea), que ele seja feito e será muito bem vindo... Temos histórias de partos humanizados com ocitocina, com centro cirúrgico, com analgesia, com episiotomia, com cesariana, com UTI neo-natal... sim, temos, e nos orgulhamos de contar que isso fez parte da história daquele nascimento e não dos protocolos genéricos do hospital. E temos mais uma porção de histórias de partos naturais, sem nenhuma intervenção e igualmente MARAVILHOSAS!!! Ai, como eu queria que vocês, senhores diretores, nos permitissem contar essas histórias, uma a uma... Ai, como eu queria que vocês sentissem na pele aquela onda de amor que preenche uma sala, uma casa, um hospital, o Universo, quando nasce um bebê de forma amorosa, respeitosa, acolhedora, HUMANIZADA...

E quando eu digo “senhores diretores”, incluo aqui todos diretores de Hospitais que ainda desconhecem o parto humanizado... e ainda, todos os gestores e todos os envolvidos com a saúde e que as vezes fazem comentários infundados e descabidos a esse novo paradigma da assistência ao parto e nascimento.

Mas preciso também agradecer, em nome de todo o Movimento em Prol da Regulamentação do Parto Humanizado em Uberlândia, que surgiu a partir desse acontecimento específico do Madrecor. Sim, as desgraças nos mobilizam a agir, a nos unir e a nos fortalecer. E foi isso que está acontecendo por aqui. Uma grande manifestação está acontecendo, nas redes sociais e fora dela, por causa disso. Muitas mulheres e homens revelando suas lindas e emocionantes histórias de partos humanizados e pedindo para que a gente possa continuar tendo essa possibilidade de escolha... Muitas barrigudas reivindicando seus direitos... Muitas profissionais engajadas e dando apoio e suporte técnico e científico ao Movimento... Nosso próximo passo é uma Manifestação Pacífica em frente ao Hospital no sábado, dia 27/09, às 16 horas... E semana que vem, uma Audiência na Promotoria com o Hospital em pauta... Quem quiser acompanhar e contribuir mais de parto, junte-se no face, por aqui.


Artigos, Documentos, Legislação e Vídeos sobre Parto Humanizado

Vídeo reportagem da Assembleia de Minas Gerais sobre as diretrizes em relação ao parto no Estado (Projeto Estadual de Humanização do Parto)
Projeto Federal de Humanização do Parto

Lei municipal de humanização do parto em São Paulo

Maternidade segura (documento da OMS de 2009)

Cadernos da Politica Nacional de Humanização (Humaniza SUS) sobre parto humanizado 2014

Publicação do Ministério da Saúde: "Parto, Aborto e Puerperio, assistência humanizada a mulher - 2001"

Revisão sobre Assistência ao segundo e terceiro períodos do
trabalho de parto baseada em evidências

Revisão sobre Recursos não-farmacológicos no trabalho de
parto: protocolo assistência

Benefícios do Parto na Água

Cesariana não diminui risco de paralisia cerebral:

Cesariana eletiva dobra risco de morte do bebê

Jejum no trabalho de parto é prejudicial

Revisão sistemática de parto normal após duas cesáreas comparado com após 1 cesárea e com terceira cesárea.

Não se deve considerar fase ativa do trabalho de parto antes dos 6 cm de dilatação. Essa prática não aumenta riscos e diminui taxa de cesarianas.

Do ponto de vista médico, permanece o índice de 10 a 15% de cesarianas como o máximo recomendável (2014)
  
Documentário sobre Parto Humanizado no SUS (Hospital Sofia Feldman)

Sobre os partos no Brasil

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Uma faísca de Vida: sobre gravidez e morte

Mãos frias. Fisgadas na barriga. Sangramento.
Descobri minha terceira gestação na sexta semana de gravidez e a perdi nessa mesma semana... Foram apenas alguns dias grávida mas tempo suficiente para viver uma vida.
Sou mãe de um casal. Não fazia parte dos planos um tercerinho. Mas assim que ele veio, foi recebido de braços abertos, assustados, é claro, mas cheios de amor...
Tá, foi rápido, não era planejado e já tenho dois filhos lindos e saudáveis. Isso tudo ameniza a situação. Mas nem por isso deixou de ser intenso, nem por isso deixei de chorar, nem por isso deixei de ser mãe novamente. A minha faísquinha de vida, minha cereja do bolo, meu presente surpresa.
Sou grata pela Vida por ter me proporcionado essa experiência.
Falar de perda, de morte, de aborto é sempre um tabu quando se fala em gravidez. Senti isso na pele.. Eu já sabia o que era, meu corpo e meu coração me disseram... eu aceitei... mas os olhinhos e os comentários de quem estava próximo, vieram meio que desajeitados, desconversando, esperançosos...
Eu vivi um aborto espontâneo! Na verdade, ainda estou vivendo... E me sinto mais humana por isso, me sinto mais forte, me sinto mais amadurecida. E entendo profundamente a dor de tantas outras mulheres, amigas, que já perderam filhos durante a gestação... Mas, mais do que dor, sinto vontade de falar de beleza. Nosso corpo é nosso templo, um lugar sagrado e sábio. E é bonito saber que ele sabe das coisas. No caso de um abortamento, um beleza triste, mas bela. Só há Vida, por que há Morte. Minha faisquinha de Vida durou pouco e talvez por isso, me trouxe tanta vida, tantas possibilidades, tanta magia. Ela veio e revirou tudo, para sempre. Ganhei minha vivência de uma gestação e um possível parto humanizado e empoderado... Sim, deu tempo de pensar no parto, na equipe, nas músicas, no pilates... deu tempo até me me libertar... isso foi transformador... deu tempo de me livrar de mais algumas amarras aos esteriótipos e velhos paradigmas. Sim, eu queria (ainda quero!) parir, mas senti, no fundo da minha alma, que  isso não era mais uma ferida. Isso foi de uma leveza sem fim.. Trabalhar com humanização do parto e nascimento requer uma mudança de paradigma, não só no discurso, mas na forma de atuar, na forma de aceitar e na forma de se colocar no Mundo.
Nessa aventura, ganhei tanto quanto perdi. E continuo agradecida e encantada com esse poder feminino de gerar... E mais desafiada a falar das perdas, da morte, do não planejado, do que sai fora da rota traçada... Quem topa?

domingo, 17 de agosto de 2014

A Borboleta e o Casulo (por Alessandra)

Escrito dia 14/08/2014

Tenho andado pela vida com mais certeza da forma que desejo caminhar, mais segura dos meus passos, menos dependente do maior fluxo. Às vezes, minhas crenças me levam para novas trilhas, outras para os caminhos com menos asfalto, e outras ainda, para lugares bem movimentados e sedimentados... Tenho me sentido muito feliz por cada vez mais andar no meu ritmo, nas batidas do meu coração.

Esse ano tem sido de tanto encontro, tanta criação, tanta realização que nem eu mesma consigo ainda dimensionar. Tenho gerado e parido algumas vezes ao longo desse ano... Uma "escola", um trabalho, vários projetos, eventos, cursos... Todos com conceitos bem parecidos: autonomia, empoderamento, respeito, liberdade, aprendizagem, individualidade e coletividade....
E a sensação de estar feliz, realizada, satisfeita...

Daí vem essa semana e com ela um grande chacoalhar da Vida. 

Iniciei um Curso de Formação em Medicina Antroposófica e fui convidada a sentir, reviver e pensar em minha vida, acontecimentos passados e presentes, minha biografia e a ligação e sentido de tudo.

Minha questão: Ser casulo ou borboleta? Percebi meus ciclos e como é claro esse meu circular entre momentos mais fechados, internos e protegidos e outros mais abertos, livres, de intenso movimento social... e assim é e será. E veio forte essa minha imagem atual de geradora de tantos projetos e como isso foi essencial para a superação dos meus "não partos" (já que vivi duas cesareas desnecessárias e hoje sou uma "ativista" da humanização do parto e nascimento). 

No meio do processo, entre um dia e o outro, um sonho: eu estava literalmente parindo naturalmente um filho. E foi depois desse sonho que o bicho pegou. Me atinei para o fato de que minha menstruação estava atrasada... sim e mais de uma semana!!! e isso nunca aconteceu! Como assim?????? Será????? Como eu falei disso no curso, sonhei e daí isso vira possibilidade em menos de 24 horas???

Para quem me conhece sabe que eu sou suuuuuper organizada e planejada, as outras duas vezes que engravidei foi tudo pré-combinado e os sintomas vieram assim que engravidei, senti dor no peito, frio na barriga, tontura, enjoo, tudo com uma semana de gravidez, antes dos testes confirmarem eu já sabia que estava grávida. E agora nada disso, nenhum sintoma físico, as expressões e os sinais vieram do sonho, dos meus sentimentos e pela minha filha (que chegou literalmente a expressar que tinha um bebê em minha barriga e pedir umas duas vezes para eu deixá-la mamar em meus seios. Detalhe: ela tem 4 anos e largou meu peito com uma ano e meio).

Na segunda, depois desse curso, comprei um teste de farmácia e adivinha? Uma lista bem forte e uma outra fraquinha... Eu simplesmente não consegui acreditar. Mostrei para o meu marido que ficou com aquela cara de "o que isso quer dizer?". Não estava nos planos ter mais filhos, a gente estava tentando se prevenir... e agora???

O que mais me incomodou foi o fato de eu não estar sentindo nada de grávida... o frio da barriga é um sintoma especial nas outras minhas histórias... E como eu não estava sentindo, não estava me sentindo grávida.

 E foi assim que procurei minha amiga médica... só disse que era uma "urgência". Ela me acolheu, me fez curtir a gravidez, sim, foi ela que com o seu doce olhar me fez acreditar que estava acontecendo. Aquela marquinha fraquinha no teste não deixava dúvidas... E a profissional, psicóloga, doula e mãe de duas crianças "crescidas" se transformou em uma geradora de uma nova vida... Mas como boa ouvinte e curadora que essa médica é, ela se atentou à minha fala, "está diferente das outras vezes"... "eu não sinto a mesma coisa"... e solicitou um "exame seriado" para confirmar a gravidez e ver o caminhar da mesma. 24 horas entre um teste e outro e nesse intervalo precisava dar alteração significativa na taxa...

Fiz o primeiro e lá estava o "POSITIVO", como esperado. E eu, ainda perdida na ideia e na reviravolta em minha vida, comecei a ver mais cores, mais música e um outro tempo ao meu redor... meus olhos começaram a se encher de lágrimas com qualquer coisa, uma música, um sorriso, um raio de sol. Eu me senti mais viva, mais potente, mais forte. O mais emocionante foi como me apaixonei mais ainda por meus filhos, foi como se estivesse olhando novamente, pela primeira vez, para cada um deles.

Fiz o segundo teste, já apreensiva, e o resultado deu um alteração mínima, quase nada pelo esperado. Conversei com a médica, que orientou esperar... mais uns dois dias... e repetir o exame. 

Aqui estou, esperando, grávida, iluminada, intensa, feliz por me sentir viva... agradecida por me sentir presenteada, um presente inesperado, o melhor de todos, daqueles que chegam sem avisar e tumultuam tudo, que faz a gente dar meia-volta e mudar a direção, sem saber que rumo seguir, aguardar... Tudo bem se essa jornada for curta, se o presente for só uma faísca de vida... 

Não consigo descrever quanta vida estou vivendo nessa semana, quanta emoção, quantas possibilidades... me re-descobri, de novo, entre o casulo e a borboleta, e me senti mais dona de mim mesma e da forma que escolhi caminhar... independente do caminho que a vida me apresenta. Estou aberta, como no sonho, para o que me espera.

Carregar uma vida dentro da gente é algo muito mágico. Minha reverência ao meu corpo, ao amor que eu e meu amor compartilhamos, ao Universo, ao pó de estrelas! Gratidão.

(P.S: Não publiquei esse texto antes porque ainda não havia contado para a família essa aventura...)