sexta-feira, 20 de junho de 2014

A arte de não fazer nada

Oi gente! Fico caçando textos que possam nos ajudar a compreender e atuar mais acertadamente na educação livre. Este eu achei muito bom, pois trata de um dos pontos centrais da proposta da Sudbury Valley: o papel da equipe de adultos. E nos apresenta um paradoxo interessante: muito pode ser feito quando aceitamos o desafio de não fazer nada! Agradecimentos a Mimsy Sadofsky, que gentilmente autorizou a publicação desta tradução.




A Arte de Não Fazer Nada
por Hanna Greenberg - Sudbury Valley School Journal, volume 15, no. 1, Outubro, 1985.
Tradução de Luís Gustavo Guadalupe Silveira

“Onde você trabalha?”
"Na Sudbury Valley School."
“O que você faz?"
"Nada."


Fazer nada na Sudbury Valley requer uma grande quantidade de energia e disciplina, e muitos anos de experiência. Eu fico melhor a cada ano que passa, e me admira ver como as outras pessoas e eu mesma enfrentamos o conflito interno que surge inevitavelmente em nós. O conflito é entre desejar fazer algo pelas pessoas, transmitir seu conhecimento e passar adiante a sabedoria que conquistou com tanto esforço, e a compreensão de que a criança tem que aprender de acordo com sua própria vontade e no seu ritmo pessoal. O uso que fazem de nós depende dos seus desejos, não dos nossos. Nós temos que estar presentes quando formos solicitados, não quando decidimos que devemos estar.

Ensinar, motivar e dar conselhos são todas atividades naturais que adultos de diferentes lugares e culturas parecem realizar para as crianças. Sem essas atividades, cada geração teria que inventar tudo novamente, da roda aos dez mandamentos, da metalurgia à agricultura. O ser humano passa o conhecimento para a juventude de geração a geração, em casa, na comunidade, no trabalho e, supostamente, na escola. Infelizmente, quanto mais a escola de hoje se esforça por dar orientação aos estudantes, mais ela prejudica as crianças. Essa afirmação demanda uma justificativa, pois ela parece contradizer o que eu acabei de dizer, ou seja, que adultos sempre ajudam as crianças a aprender como entrar no mundo e a se tornar úteis dentro dele. O que eu aprendi, lenta e dolorosamente ao longo dos últimos anos, é que as crianças sozinhas tomam decisões cruciais por si mesmas de maneiras que nenhum adulto poderia antecipar ou mesmo imaginar.

Considere o simples fato de que na SVS, muitos estudantes decidiram enfrentar a álgebra não porque eles precisam saber isso, ou mesmo porque acham interessante, mas porque ela é difícil, chata e eles são ruins em álgebra. Eles precisam superar seu medo, seu sentimento de incompetência, sua falta de disciplina. Repetidamente, estudantes que tomaram essa decisão alcançam seus objetivos e dão um grande passo na construção de seus egos, sua confiança e seu caráter. Então, por que isso não acontece quando todas as crianças são obrigadas e encorajadas a estudar álgebra no ensino médio? A resposta é simples. Para superar um obstáculo psicológico, você tem que estar pronto para se comprometer pessoalmente com isso. Este estado mental só é alcançado após intensas contemplação e autoanálise, e não pode ser determinado por outras pessoas, nem pode ser criado para um grupo. Em todo caso, é uma luta pessoal, e quando é bem-sucedida, é um triunfo individual. Professores só podem ajudar quando solicitados, e sua contribuição para o processo é pequena se comparada ao trabalho realizado pelo estudante.

O caso da álgebra é fácil de entender mas não é tão revelador quanto outros dois exemplos que aconteceram em recentes defesas de teses. Uma pessoa de quem eu me tornei muito próxima, e em relação à qual eu poderia facilmente ter me iludido com a ideia de tê-la “orientado”, me chocou quando, contrariando minha “sabedoria”, achou mais útil usar seu tempo na escola para se concentrar em se socializar e organizar bailes do que aperfeiçoando as habilidades de escrita que ela iria precisar para a carreira de jornalista escolhida por ela. Não teria ocorrido a nenhum dos adultos envolvidos com a educação dessa estudante em particular aconselhar ou sugerir a ela o caminho que ela sabiamente escolheu para si mesma, guiada somente por seu conhecimento e seu instinto íntimos. Ela tinha problemas, os quais ela primeiro descobriu para depois resolver de maneiras criativas e pessoais. Ao lidar diretamente com as pessoas, ao invés de observá-las de longe, ela aprendeu mais sobre elas e consequentemente realizou insights melhores e mais profundos, os quais, por seu lado, a levaram a aperfeiçoar sua escrita. Será que exercícios de escrita em aulas de inglês teriam feito tanto por ela? Duvido muito. E o que dizer sobre a pessoa que amava ler, mas que deixou de amar logo após chegar à SVS?  Por muito tempo, ela achava que tinha perdido sua determinação, seu intelecto e seu amor pelo aprendizado pois tudo o que ela fazia era brincar ao ar livre. Após vários anos, ela descobriu que havia se enterrado nos livros para fugir do contato com o mundo exterior. Somente depois de ter sido capaz de superar seus problemas de socialização, e somente depois de ter aprendido a curtir atividades físicas e ao ar livre, ela retornou ao seus amados livros. Agora, eles não são mais uma fuga, mas uma janela para o conhecimento e para novas experiências. Será que eu ou qualquer outro professor teríamos conseguido guiá-la tão sabiamente quanto ela mesma? Eu acho que não.

Enquanto eu escrevia isso, outro exemplo de muitos anos atrás me veio à mente. Ele ilustra como os tipos normais de incentivo positivo e de contribuição podem ser contraproducentes e altamente limitantes. O estudante em questão era obviamente inteligente, aplicado e estudioso. Inicialmente, qualquer teste teria mostrado que ele tinha um talento notável para a matemática. O que ele realmente fez, durante seus quase dez anos de SVS, foi praticar esportes, ler literatura, e já na adolescência, tocar música clássica ao piano. Ele estudou álgebra principalmente por conta própria, mas pareceu ter dedicado pouco do seu tempo à matemática. Agora, com vinte e quatro anos de idade, ele é um estudante de pós-graduação em matemática abstrata e está se saindo muito bem numa das melhores universidades. Tremo só de pensar no que teria acontecido a ele se o tivéssemos “ajudado” a acumular mais conhecimentos em matemática, em detrimento das atividades que ele escolheu realizar, durante os anos que passou aqui. Será que ele teria a força interior, quando pequeno, para resistir aos nossos elogios e adulações e ficar com suas armas, ler livros,  brincar de esportes e tocar música? Ou ele teria optado por ser um “excelente estudante” em matemática e em ciências e crescido sem realizar sua busca por conhecimento em outras áreas? Ou ele teria tentado realizar tudo isso? E a que preço?

Como contraponto ao exemplo anterior, gostaria de citar outro caso que ilustra ainda outro aspecto de nossa abordagem. Alguns anos atrás, uma adolescente que havia sido estudante na SVS desde os seus cinco anos de idade me disse com bastante raiva que havia desperdiçado dois anos e não aprendera nada. Eu não concordei com sua avaliação sobre si mesma, mas eu não senti que devia discutir com ela, então eu simplesmente falei: “Se você aprendeu quão ruim é desperdiçar seu tempo, ora, então você não poderia ter aprendido uma lição melhor tão cedo na vida, uma lição que será valiosa para o resto dos seus dias.” Essa resposta acalmou a garota, e eu acredito que seja um bom exemplo do valor de permitir que os jovens cometam erros e aprendam com eles, mais do que direcionar suas vidas numa tentativa de evitar os erros.

Por que não deixar que cada pessoa decida como vai usar seu próprio tempo? Isso iria aumentar a probabilidade de as pessoas crescerem satisfazendo suas necessidades educacionais únicas sem ser atrapalhadas por nós adultos que nunca saberemos o bastante ou seremos sábios o suficiente para aconselhá-las apropriadamente.

Assim, eu estou me ensinando a não fazer nada, e quanto mais eu sou capaz de fazer isso, melhor é o meu trabalho. Por favor, não cheguem à conclusão de que a equipe é supérflua. Você pode dizer a si mesmo que as crianças praticamente administram a escola sozinhas, então pra que tanta equipe, só pra ficar sentada sem fazer nada. A verdade é que a escola e os estudantes precisam de nós. Estamos lá para observar e alimentar a escola enquanto instituição e os estudantes enquanto indivíduos.

O processo de se auto dirigir, ou de trilhar seu próprio caminho, quer dizer, de viver sua vida mais do que só passar o tempo, é natural mas não é autoevidente para as crianças que crescem em nossa civilização. Para alcançar esse estado mental elas precisam de um ambiente que seja como a família, numa escala maior do que a família nuclear, mas ainda assim apoiador e seguro. A equipe, ao ser atenta e cuidadosa e ao mesmo tempo sem ser diretiva e coercitiva, dá às crianças a coragem e o estímulo para ouvir a si mesmas. Elas sabem que nós somos competentes para guiá-las, como qualquer adulto é, mas nossa recusa em fazer isso é uma ferramenta pedagógica usada ativamente para ensiná-las a ouvir somente a si próprias e não a outros que, na melhor das hipóteses, sabem somente metade do que há para saber sobre elas.

Nossa recusa em dizer aos estudantes o que fazer não é percebida por eles como falta de algo, um vazio. Ao contrário, é o estímulo para eles construírem seu próprio caminho, não sob nossa orientação, mas sob nossa atenção cuidadosa e apoiadora. Pois são necessários trabalho e coragem para fazer o que eles fazem para e por si mesmos. Isso não pode ser feito num vácuo de isolamento, mas se desenvolve numa comunidade viva e complexa que a equipe estabiliza e perpetua.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Sobre sogras

Nesse exato momento meu marido está na rodoviária com os meus filhos, se despedindo da minha sogra. Ela ficou 2 semanas aqui em casa, como é costume quando vem aqui pra nossa cidade (umas três? vezes ao ano) e sabe o que eu tenho vontade de dizer a ela???

Fique mais um pouco, sentiremos sua falta.

Esse ano completo dez anos de casada e quatorze de namoro. Fui a um chá de casamento esse final de semana e ouvi a carta que a sogra escreveu de presente para a nora. Começava exatamente assim: "quero ser sua amiga". Me emocionei com a carta e agora me emociono ao pensar em minha sogra. Nem tudo foram ou são flores em nosso relacionamento mas acho que tenho orgulho de termos aprendido a nos respeitar e a gostar da convivência uma com a outra (tô errada sogrinha?).

Há mais ou menos três anos escrevi uma carta para ela na qual desabafava e pedia delicadamente que ela não ficasse na minha casa em determinada data que ela queria vir. Foi difícil escrever e mais ainda lidar com as reações de algumas pessoas da família, mas acho que de tudo que fiz, isso foi uma das coisas que mais me aproximou dela. Justifico: para escrever precisei ser sincera comigo e com ela, precisei me colocar em primeiro lugar e precisei me arriscar a perder o carinho e a amizade dela. Imagino o quanto a carta foi difícil de ser lida por ela e imagino a força que ela precisou enfrentar ao voltar na minha casa algum tempo depois. Mas tudo isso me possibilitou me expressar mais naturalmente e conversar de coração para coração e também me deu mais autonomia de ser a "gerente" da minha casa e da minha vida. Poder falar não, poder impor meus limites e mesmo assim ser aceita por ela, me fez crescer. Obrigada!

Minha sogra é uma mulher que adora terapia, grupos de apoio, círculo de mulheres... vive apresentando um novo livro de "auto-ajuda", uma nova abordagem terapêutica, um novo alimento para cura. Ela está sempre aberta a crescer, evoluir, trabalhar aspectos não-positivos de sua personalidade. E acaba inspirando isso em mim. Foi ela que me deu o livro que me ajudou a emagrecer. Foi ela que me deu o livro que me ajudou a entender as linguagens de amor que eu e meu marido utilizamos. Foi ela que me deu o Tarô das Deusas que eu tanto adoro...

Minha sogra é uma mulher vaidosa, que ama jóias, bolsas e sapatos. E acaba inspirando isso em mim. Foi ela que me deu, me vendeu, ou emprestou a maioria dos meus brincos, anéis, bolsas e sapatos e que me ajuda a escolher as roupas que eu compro quando vou a sua cidade (até aqueles TRÊS vestidos de festas que comprei por insistência dela quando ia comprar apenas um...). Sim, minha sogra também têm tendências a exagerar... mas isso ela também têm se trabalhado.

Enfim, nesse mesmo chá de casamento, refletimos um pouco sobre os laços familiares que abraçamos quando firmamos o casamento com outro alguém. No caso do casamento, ao casarmos, precisamos entender que mesmo que distantes fisicamente, o nosso companheiro carrega com ele sua família e vice-versa e que isso fará parte do pacote, queiramos ou não. No meu caso, queria registrar em público, que me sinto feliz com a família que tenho, com todos os nós, espinhos e apertos que toda família carrega. E me sinto feliz por ter em você, minha sogra, uma amiga.

Minha casa está aberta para você, sempre, mesmo nos momentos que eu precisar fechar a porta.
Obrigada por tudo, por ter gerado e criado seu filho como um homem respeitoso e digno, pelo carinho e paciência com os meus filhos e pelas nossas conversas e reflexões.

Boa viagem e até logo!






terça-feira, 1 de abril de 2014

"Disponibilidade instantânea, sem presença constante"

Olás! Trago aqui mais uma tradução sobre o funcionamento da Sudbury Valley School, desta vez sobre o papel da equipe de funcionários. A publicação foi gentilmente autorizada por Mimsy Sadofsky, fundadora e funcionária da escola desde 1968. A ideia do texto (curtinho) é simples, mas ao mesmo tempo desafiadora! Espero que gostem!





Disponibilidade instantânea, sem presença constante[1]
Hanna Greenberg
Tradução de Luís Gustavo Guadalupe Silveira

Eu li esta citação de Lotte Bailin em algum lugar:
“Disponibilidade instantânea sem presença constante é o melhor uma mãe pode oferecer.”
Acho que é uma citação adorável, e eu a escrevi num pedaço de papel que fica colado em minha escrivaninha. Na semana passada, aconteceram duas situações sem ligação que esclareceram pra mim a razão de eu ter guardado essa citação e o que ela desperta em mim.
Como acontece às vezes na escola, tivemos um pequeno acidente. Uma menina fez uma estrela e bateu com força no braço de sua amiga Lily. Aquilo machucou muito e Mikel, que já havia sido um paramédico, a socorreu. Ele colocou uma tala com muito cuidado no caso de algum osso ter se quebrado e ligou para os pais de Lily para que a buscassem e a levassem ao médico. Para Mikel, a lesão não exigia cuidados urgentes e seria melhor para a criança estar com seus pais do que ser levada para um hospital de ambulância, o que é bem mais traumático.
Isso aconteceu durante uma Assembleia Escolar, quando um assunto importante estava sendo discutido, mas de tempos em tempos um membro preocupado da equipe escapava da Assembleia para ir ver como Lily estava. Todos nós sabíamos que Mikel estava tomando conta dela muito bem, mas simplesmente não conseguíamos dar atenção ao tema da Assembleia sem ver com nossos próprios olhos se Lily estava realmente bem. Mais tarde, eu liguei para Lily para saber como ela estava e sua mãe conversou comigo sobre o acidente.
O que ela disse me deixou estupefata!
A mãe disse que somente agora, após o acidente, ela finalmente entendia como a equipe trabalha na escola. Lily contou para ela quão preocupados e cuidadosos nós tínhamos sido e como ela havia se sentido bem com isso. A mãe entendeu pela primeira vez em quase dois anos que aquilo que parecia uma negligência benigna por parte da equipe era de propósito, e não era negligência de modo algum. Era dar espaço para a criança se desenvolver e crescer livre da interferência de adultos.
O outro incidente aconteceu com um menino em sua excursão para as Montanhas Nevadas. Sua mãe publicou parte do seu diário num Boletim Informativo da SVS[2] em que ela também diz, na seguinte citação, como o incidente a ajudou a entender melhor a filosofia da SVS, depois de estar envolvida com a escola por mais de um ano.
“O fato de tanta atenção ter sido dada ao meu filho durante os últimos cinco dias, por nós e pela equipe da escola, é uma boa mensagem de cuidado e apoio para ele. A maior parte do tempo eu vi a SVS operando com uma negligência benigna, mas nesse caso uma abordagem diferente foi realizada à perfeição. Eu sou grata, e isso me ajudou a ver a SVS de um jeito novo. Basicamente, o que eu vi acontecer foi a equipe atendendo ao seu firme desejo de ir nessa excursão quando decidiu apoiá-lo, de um jeito que mostrava que ele estava pronto para a viagem, ainda que ao fazer isso a equipe acabou tendo mais trabalho e mais responsabilidade.”
O que me surpreendeu nas falas dessas duas mães foi quanto tempo leva de fato, mesmo para aqueles que mandam seus pequenos filhos para a SVS, para entender como a escola realmente funciona. Eles confiam o suficiente em suas crianças para trazê-las à escola e permitir que elas sejam responsáveis por si mesmas, mas os pais não sabem realmente como a equipe trabalha. Na verdade, eu mesma sou incapaz de explicar isso muito bem e eu acho que essa seja uma das causas para a dificuldade que muitos pais têm de matricular seus filhos em nossa escola. O problema é que a negligência benigna parece pura negligência. Somente em circunstâncias extraordinárias os pais conseguem ver como a equipe está interagindo com seus filhos. No dia-a-dia o cuidado e o empoderamento têm lugar o tempo todo, mas de uma forma tão sutil e tranquila que ninguém repara – nem a equipe, nem as crianças, nem os pais. Isso simplesmente ocorre naturalmente. Mas de tempos em tempos as circunstâncias exigem da equipe que ela reúna todos os seus recursos e dirija toda a sua atenção e energia para as questões de um estudante. Quando isso acontece, essa atividade intensa lança luz sobre o que acontece na SVS todo dia de um modo mais silencioso e sutil.
Assim, parece que “disponibilidade sem presença constante” é de fato o que fazemos na SVS. Nem sempre nós respondemos instantaneamente a todos os pedidos, pois nós normalmente estamos ocupados com um estudante ou com qualquer outra coisa que fazemos para manter a escola funcionando. Temos que usar nosso bom senso e decidir em cada caso se continuamos a fazer o que estávamos fazendo ou se paramos para atender a um pedido. Normalmente, marcamos um encontro para depois e isso funciona muito bem. Frequentemente, isso força as crianças a resolver sozinhas seus problemas e isso certamente é outro jeito de elas ganharem confiança em si mesmas. Mas eventualmente acontece algo que não pode esperar e temos que largar tudo para acudir alguém. Nesses casos é fácil para nós responder prontamente, pois todas as crianças sentem a urgência e elas querem que nós ajudemos seu amigo que está encrencado ou sofrendo. O apoio que cada criança dá uma a outra é da mesma qualidade e estilo do apoio dado pela equipe. Elas ajudam quando solicitadas e dão espaço umas às outras quando isso é pedido.
À medida que os anos passam, nós nos tornamos melhores como membros da equipe da SVS. Nós aprendemos a arte de permitir que as crianças sejam nossas guias em atender as suas necessidades e nós fazemos mais por elas quando fazemos menos – não interferindo, enquanto ouvimos cuidadosamente o que elas desejam.



[1] Publicado em SADOFSKY, Mimsy; GREENBERG, Daniel (ed). Reflections on the Sudbury School Concept. Framingham: Sudbury Valley School Press, 1999. p. 110-113.
[2] Sudbury Valley School (NT).

quarta-feira, 12 de março de 2014

Você é capaz de confiar que seus filhos irão educar a si mesmos?

O texto que publico a seguir é a tradução da introdução de um livro bem legal sobre os princípios da Sudbury Valley School, gentilmente autorizada pela autora, Mimsy Sadofsky. Espero que provoque boas reflexões!




Você é capaz de confiar que seus filhos irão educar a si mesmos?[1]
Mimsy Sadofsky

Tradução de Luís Gustavo Guadalupe Silveira


          Quando eu pensei sobre qual seria a melhor maneira de explicar o que é a Sudbury Valley School, decidi que eu queria explicá-la como mãe. Eu sou mãe de três filhos que fizeram parte daquilo que começou como um experimento muito empolgante e acabou se mostrando uma ideia solidamente comprovada que tem dado certo há três décadas[2].
          A Sudbury Valley School surgiu da agitação e do descontentamento que marcaram o final dos anos 1960. A maioria de vocês deve ter visto o filme “Hair” – ou talvez não, mas certamente vocês pensam nos anos 60 como um tempo de liberdade, desconforto e insatisfação com o status quo político e, por último mas não menos importante, um tempo de experimentações. Do ponto de vista dos ultrassofisticados anos 90, olhamos para os anos 60 com uma pontinha de desdém. O que certamente não é uma atitude muito correta, mas, de todo modo, a instituição da qual estou falando começou, foi um tipo de produto e de algum jeito sobreviveu àqueles anos impetuosos.
          Uma das ideias que pairava no ar nos anos 60 era a da escola “livre”. E foram fundadas várias escolas cuja ideia central era a liberdade. Naquele tempo, Framingham era um subúrbio calmo de Boston, e ali uma escola que incorporava toda a liberdade razoável era inaugurada silenciosamente por um grupo de pessoas muito quadradas e convencionais. As ideias por trás dessa escola eram muito simples, até elementares. À medida que a escola foi se desenvolvendo ao longo do tempo, os princípios se mantiveram os mesmos, mas a profundidade da compreensão alcançada pelas pessoas envolvidas com a escola sobre esses princípios cresceu imensamente. Eu sou uma sobrevivente, e longe de ser a única, dessas três décadas de trabalho e conhecimento crescentes.
          Muitos de vocês devem ter ouvido falar de planejamento base zero. A Sudbury Valley foi um tipo de escola “planejamento base zero”. Todos as preconcepções sobre o que uma escola precisava fazer eram considerados supérfluas até que se provassem úteis e necessárias. Recentemente, li um artigo na revista American Heritage que falava sobre como essas ideias sobre educação são recentes; noções que pareciam, e ainda parecem para a maioria das pessoas, essenciais para se definir uma escola. Cem anos atrás, somente 3% da população se formavam no ensino médio, e eles definitivamente não estavam tendo uma educação “prática”. Pouco mais de cinquenta anos atrás, esperava-se que somente 50% da população chegassem ao ensino médio e somente em torno de 20% eram considerados aptos para a universidade.
          As pessoas que fundaram a Sudbury Valley sentiam que era totalmente natural para os seres humanos, assim como para todos os outros animais, aprender como sobreviver em seu habitat natural. No caso dos humanos, isso significa que seu cérebro tem que se desenvolver completamente e tem que desenvolver ideias cada vez mais complexas sobre o mundo que os cerca. Eles têm que desenvolver uma visão de mundo e têm que refiná-la ao longo de toda a sua vida. Qual seria possivelmente o melhor jeito de fazer isso? Parece que o melhor jeito é deixar a natureza seguir seu curso; permitir que cada indivíduo floresça completamente e ganhe a confiança habitual das pessoas que sabem o que querem da vida e que descobrem sozinhas como conseguir isso. Parece que essa tarefa de descobrir as coisas e tentar melhorar os próprios conhecimentos, de ir atrás do que você quer, é algo que cada ser humano faz desde a mais tenra idade, e o principal fato que muda quando as pessoas crescem e se tornam adultas é que as coisas que elas desejam e os meios que são capazes de usar para alcançá-las podem se tornar mais complexos e sofisticados. Nós sentimos que uma criança autorizada a desenvolver essas capacidades naturais de tentar compreender o mundo ao máximo seria a criança que melhor se encaixaria numa sociedade que exige criatividade e uma extraordinária capacidade de adaptação. E era totalmente claro pra nós o que era necessário – adaptabilidade e criatividade. Então fizemos o compromisso de educar nossos próprios filhos de um modo que parecia fazer sentido pra nós, não importando o quão “estranho” isso fosse.
          Seres humanos, e isso era claro mesmo no final dos anos 60, em breve iriam viver numa sociedade pós-industrial e tinham que se ajustar a essa realidade. Trabalhadores de linha de montagem eram cada vez menos necessários. Para os fundadores da Sudbury Valley, parecia que os seres humanos que se desenvolviam livremente, sem qualquer obstáculo desnecessário à sua criatividade, e cientes de que a responsabilidade por sua própria vida estava em suas mãos, provavelmente iriam se encaixar mais confortavelmente num mundo que estava começando a mudar numa velocidade vertiginosa.
          Numa época em que a revolta e o questionamento estavam no ar, ainda parecia óbvio para nós que havia componentes muito importantes em nossa sociedade que davam força e coesão a ela. Esses componentes nos deram a força para fazer a revolta, na verdade. Um deles era a democracia. Eu acho que a maioria de nós não aprecia o quanto a democracia está profundamente entranhada em cada um. Para nós é uma questão de princípios que uma grande quantidade de coisas é decidida pela maioria. Uma maioria de votos elege o governador do estado. Uma maioria pode derrotar uma proposta feita por plebiscito, ou transformá-la em lei. Não vemos nada demais em formar clubes ou grupos civis que tomam decisões democraticamente. Em New England, a maioria vive em cidades que são conduzidas segundo o modelo de Assembleias Municipais. Às vezes essas Assembleias podem parecer irritantemente incontroláveis, mas certamente são democráticas! Isso está profundamente arraigado à experiência Americana. Parece fazer muito sentido que uma escola permita que as crianças ganhem experiência real com um governo democrático ao governar democraticamente a instituição que elas estão usando para obter sua própria educação.
          Assim, dois dos aspectos fundamentais de uma escola em que os fundadores da SVS estavam interessados eram liberdade e democracia. E juntos eles apontam para a característica primária que é imprescindível em nossa instituição: confiança; confiança que as pessoas irão descobrir o que precisam, como vão chegar lá, como construir uma comunidade.
          E então, uma terceira ideia se apresenta: responsabilidade. Cidadãos que crescem numa sociedade que oferece liberdade e confiança devem se tornar responsáveis. Como você torna uma pessoa responsável? Todo mundo sabe a resposta: você confia responsabilidade a ela. Isso só pode ser aprendido na prática.
          Essas eram as ideias que se enquadravam razoavelmente bem nos anos 60 e se encaixavam solidamente no todo que iria se tornar a Sudbury Valley. O motivo pelo qual a escola ainda existe é que essas ideias formaram uma unidade coerente e razoável, foram firmemente estabelecidas, batalhadas com firmeza, e fortemente defendidas ao longo dos anos.
          Eu vim aqui nesta manhã como uma sobrevivente desses anos de experiência. Mas uma sobrevivente muito especial: em 1968, quando todas essas ideias praticamente não tinham sido testadas, meu marido e eu fizemos um compromisso que teve amplas consequências para nossa família: nossos filhos foram matriculados e se tornaram alguns dos estudantes originais nessa escola.
          Muitas vezes, nos anos que se seguiram, eu me lembro do que sentimos à época. Estávamos extremamente empolgados, pois os princípios dessa nova escola pareciam tão razoáveis, tão corretos; e estávamos extremamente apavorados, pois era claro que mandar crianças para uma escola assim significava abrir mão de qualquer traço de controle sobre suas vidas escolares. Frequentemente, significou não ter a menor ideia do que se passava em suas vidas escolares. Significava que estávamos depositando um nível de confiança em nossas crianças que era total e completamente diferente de qualquer coisa que as pessoas que conhecíamos (nossos pais, ou nossos amigos ou nossos exemplos de vida) considerariam conceder. Assim, estávamos apavorados. Trinta anos depois, não estamos mais com medo, mas mesmo agora, com toda a nossa experiência, cada pai que envia sua criança para uma escola assim sente os mesmos medos.
          Você certamente ficará inseguro ao falar para uma criança de cinco ou oito anos de idade: “Nós confiamos que você irá descobrir o que você quer e o que você necessita na vida, e também descobrirá como conseguir isso. Vamos permitir que você fique num lugar que reconhece sua habilidade para fazer isso, que respeita você da mesma maneira que um adulto é respeitado, e que também apoia você com uma atmosfera de gentileza e afetividade enquanto você está aprendendo a conduzir sua própria vida.” Mas quando você pensa a respeito, percebe que as pessoas nascem com os cérebros prontos para isso; elas estão adquirindo informação e aprendendo como construir uma visão de mundo desde a mais tenra infância. Quando você pensa em quão difícil é começar do zero e dominar sua língua nativa em poucos anos, fica mais fácil confiar que aquele menino de seis anos, ou de dez anos, irá continuar compreendendo gradualmente o ambiente em que vive. E quando você pensa em como é muito mais difícil pra você, se já tiver passado dos quarenta, programar um videocassete do que é para o seu filho de nove anos de idade, então talvez você possa parar de se preocupar, ou pelo menos pegar mais leve por alguns momentos!
          A Sudbury Valley aceita pessoas de todas as idades, a partir dos quatro anos[3]. Ela oferece um diploma de ensino médio. Há aproximadamente duzentos estudantes. Todos estão fazendo o que querem o tempo todo, e os grupos de estudantes (e equipe) mudam constantemente, assim você pode fazer coisas diferentes em lugares muito diferentes com diversas pessoas num único dia; ou fazer uma coisa sozinho, ou com um grupo do qual você gosta, durante um mês inteiro.
          Os interesses são buscados com gosto, e não há juízo de valor – exceto quando a questão é segurança, legalidade ou padrões da comunidade – sobre as prioridades escolhidas por alguém. Assim, um estudante pode decidir jogar Dungeons and Dragons, ou Magic[4], ou brincar com ursinhos de pelúcia por semanas ou meses e ninguém na escola jamais irá sentir que ele esteja perdendo seu tempo. Infelizmente, muitos estudantes irão encontrar pessoas de fora que não irão entender a intensidade da experiência, a profundidade do conhecimento que se pode tirar dessas atividades. Em nossa escola, não nos preocupamos. Nós ouvimos o vocabulário sofisticado, nós vemos as crianças se tornarem extraordinariamente articuladas, nos maravilhamos com sua criatividade e nos surpreendemos com seu bom senso. De verdade.
          Por exemplo: Hoje há uma criança desse município que, juntamente com sua irmã caçula, é uma estudante da Sudbury Valley. A estrutura democrática da Sudbury Valley inclui um corpo disciplinar, chamado Comitê Judicial, formado por sorteio de membros de diferentes idades, que investiga e atua a partir de reclamações escritas sobre violações de regras. Eu devo ter me reunido nesse comitê com pessoas que tinham tanto bom senso quanto a jovem garota da qual estou falando, e devo ter visto outras que eram muito criativas para bolar punições para os violadores de regras, mas eu nunca vi ninguém que superasse sua habilidade para ser brilhante e criativa ao mesmo tempo.
          Fica claro pra mim que trabalhar de igual pra igual com pessoas mais velhas e mais novas para resolver problemas na comunidade é um dos maiores presentes que podemos oferecer às crianças. E aos adultos. Eu não acho que nenhum de nós entendia o quanto isso era verdade nos idos de 1968; muitos de nós entendemos agora.
          Mas vamos voltar aos pais. É maravilhoso pensar que seu filho pode descobrir como resolver problemas, mas também é perfeitamente normal imaginar se ele irá ou não dominar frações algum dia. É perfeitamente normal ficar preocupado se o sucesso de seu filho como adulto não está condicionado ao fato dele notar a importância de certas coisas que a escola pública nos disse serem vitais. Bem, eles irão notar o que é importante. Eles tanto irão notar quais coisas são realmente importantes quanto irão descobrir como se tornar adultos completamente desenvolvidos. Porque um adulto bem-sucedido é um adulto que se sente livre para aprender coisas novas; se sente no controle de sua vida; e sabe como se divertir. Um adulto bem-sucedido é uma pessoa que tem bom senso, é gentil e cordial. Acho que nós queremos, em primeiro lugar, que nossos filhos sejam boas pessoas, em segundo lugar, que eles tenham as ferramentas necessárias para buscar seus próprios interesses e, por fim, que se sintam parte da comunidade, o que quer que isso signifique pra eles. Pode ser que não expressemos nossos ideais dessa forma quando pensamos a respeito da educação de nossas crianças, mas quando pensamos sobre suas vidas, poucos de nós desejaríamos algo muito diferente.
          Acho que a Sudbury Valley prepara crianças para serem adultos competentes, bem-sucedidos e o único motivo pelo qual uma pessoa sobrevive tendo filhos numa escola dessas é porque ela faz cada pai e cada mãe dar um passo para trás e examinar seu próprio conjunto de valores, e ver que suas crianças não estão fora dos valores de sua família.
          É difícil, enquanto nossas crianças estão formando a si mesmas, e parecendo completamente diferentes umas das outras e diferentes de você, imaginar a extensão de nossa influência sobre elas. Mas certamente, uma criança intelectual provavelmente irá surgir numa família que valoriza muito a leitura e o conteúdo de livros e museus. Um ser humano atencioso e gentil não é um fruto improvável de pais atenciosos e gentis; é mais a confirmação da regra. Seus filhos, não importa como as coisas estejam indo durante seus anos mais rebeldes, muito provavelmente irão se espelhar nos valores que foram exemplificados pela família.
          De fato, exemplos de comportamento em que se espelhar são a razão mais importante de termos adultos numa escola como a nossa. Os estudantes precisam entender como os adultos vivem suas vidas, como os adultos tomam decisões, como os adultos estudam e aprendem. Eles precisam ver estudantes de todas as idades e também adultos envolvidos nessas coisas, ver a vida acontecendo ao redor deles. Eles precisam ver pessoas que amam seu trabalho trabalhando. Eles usam essa informação para modelar a si mesmos; para descobrir como a vida funciona e como eles desejam trabalhar.
          O trecho a seguir é a fala de um ex-estudante sobre esse assunto. Ela foi extraída de entrevistas feitas por Hanna Greenberg e publicadas no livro Kingdom of Childhood[5]:

          Você pega um certo tanto de sua própria personalidade de outras pessoas. Parte do que molda você naquilo que você é é aquilo que você colheu ao seu redor. Você tem essa vasta gama de atividades diferentes acontecendo e diferentes personalidades participando delas e diversas pessoas com as quais você interage. Você pega o que deseja disso tudo, mas a coisa toda não molda ninguém. Todos são moldados por partes que colhem do todo. Se a coisa toda formasse todo mundo, não funcionaria. Não haveria personalidades distintas. Seríamos ciborgues. Não é assim que funciona. Você tem sua própria cabeça e você a constrói sozinho. Você não pega tudo que seus amigos pegam – você não vai sempre ao mesmo tipo de curso, ou pratica os mesmos esportes. Você escolhe o que é interessante pra você.
          Eu nunca tive medo de adultos. Não que eu não respeite as pessoas. Eu respeito crianças de quatro anos. Meu respeito pelas pessoas é igual. Não interessa se você é famoso ou se você é uma criança pequena ou se você é um adulto ou o que quer que seja. Eu não aprendi isso só na escola, mas também na minha criação. Isso faz diferença também. Quanto mais você for exposto a essas coisas, mais você tende a acreditar nelas e realmente incorporá-las em sua vida. Se você vê isso na escola, mas algo completamente diferente é praticado em casa, então você não está tendo tanta base assim. Você vê algo por oito horas e outra coisa durante as outras oito horas e você dorme no resto do tempo, então é uma corda bamba. Você tem que encarar essas coisas com cautela e dizer, “Bem, essas pessoas fazem isso desse jeito, mas minha família faz de outro modo...” e então você tem que escolher qual é o jeito certo de agir. Definitivamente, ajuda muito ter as mesmas filosofias, as mesmas práticas e as mesmas crenças em casa e na escola.
          A maior parte do que eu aprendi, aprendi de outras crianças. Eu não estou dizendo que não aprendi nada nas aulas que fiz. Eu aprendi. Mas o grosso do que você aprende na Sudbury Valley é vida. Você aprende a lidar com pessoas, como fazer coisas e como organizar tudo que você aprendeu. Algumas coisas você irá aprender vendo adultos em ação, ou participando com adultos. Eu fui parte de comitês e coisas do tipo onde podia haver pessoas me mostrando como fazer. Mas a maior parte – 99%, eu acho – do que você aprende, aprende de outras crianças, e isso tem a ver com a vida – como você vive e como as coisas acontecem e o que está rolando. Não é tipo, “Eu aprendi isso dele e dela.” Nós simplesmente aprendemos isso juntos. Algumas coisas você aprende se relacionando diretamente com outras crianças, quando você pode ver o aprendizado acontecendo. Mas na maior parte do tempo é simplesmente porque você se sentou e conversou, ou alguém está dizendo alguma coisa e uma ideia surge, se destaca e se desenvolve.

          Um aspecto interessante de ter crianças em que se confia para tomar as próprias decisões e para administrar suas vidas é que não acontece muita rebeldia. Os anos da adolescência podem não ser uma moleza, mas também não são o fim do mundo. Crianças que não são tratadas como prisioneiras não precisam ficar nervosas por estarem sendo tratadas como prisioneiras. Isso faz uma enorme diferença para a vida familiar! Grande parte dos conflitos familiares normais desaparece quando você trata suas crianças com o mesmo respeito que você espera delas. E uma coisa engraçada acontece quando você educa crianças tratando-as com respeito: elas respeitam tudo: você, outras pessoas, animais, até insetos e peixes!



[1] Introdução do livro Reflections on the Sudbury School Concept, editado por Mimsy Sadofsky e Daniel Greenberg, publicado em 1999. p. 1-10.
[2] NT: a SVS foi fundada em 1968.
[3] Mais especificamente, 21 anos costuma ser a idade máxima dos estudantes (NT).
[4] Um jogo de RPG de mesa e um card game, respectivamente (NT).
[5] GREENBERG, Daniel; SADOFSY, Mimsy (ed). Sudbury Valley School Press: Framingham, 1994.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Venha nos visitar!

Saudades de escrever... Um bom tempo se passou desde o último post e com o tempo, muitas vivências, sentimentos, acontecimentos e pensamentos... É incrível como mudamos a todo instante. Teimosos são aqueles que insistem em permanecer no mesmo lugar, um dia após o outro! Eu tenho tentado deixar a onda me levar. Confesso novamente que ainda sinto medo (meu marido que o diga!), mas também aprendi a aceitar o medo e deixar ele passar por mim, sem que isso signifique jogar as âncoras e parar no meio do mar. Sinto o medo, ponho ele pra fora, durmo, e no dia seguinte, continuo a navegar... Mas antes do medo, quero contar da vida, do dia-a-dia, das idas e vindas... 

Foram férias, viagem pra casa da vó, tratamento antroposófico, partos, encontro de educação livre, visitas em casa, mudança de rumo no trabalho, construção de um projeto de comunidade de educação livre... e muito mais...

Aprendemos a fazer pão. O Luís Gustavo descobriu sua habilidade em sovar e agora raramente compramos pão, aqui a preferência é o caseiro mesmo. O de fubá então... Junto com o pão, vieram mais questionamentos. E acabamos instituindo a segunda-feira sem carne (o salmão vai ter que mudar de dia!). Por mais que a gente tente, continuamos adorando rotinas! Kkkkkkk! Tem dia sem carne, dia do macarrão, hora de dormir...

E no meio da nossa rotina, abrimos a porta e o coração da casa para recebermos outra família em casa. Uma família convidada, que a gente não conhecia pessoalmente, com suas peculiaridades (vegetarianos e orgânicos!) e que encheu nossa casa de vida! É uma história que começou em novembro do ano passado, quando eu e meu marido participamos da I Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação (CONANE). Para começar, nos cadastramos para a hospedagem solidária. Quer dizer, pedimos casa para dormir com o intuito de economizar e trocar experiências. Acabamos conhecendo pessoas maravilhosas e vivendo coletivamente nesses dias que ficamos lá numa casa ecológica e vegetariana. Fizemos amigos, fogueira e caldos! Daí, nesse Encontro, dentre várias experiências de educação encantadoras e reais que já acontecem Brasil afora, conhecemos pessoalmente a Sabrina Bittencourt. Uma figura com propostas muito afins ao que fomos buscar por lá. Então a convidamos para nos visitar em Uberlândia e ela topou. Até então era só uma proposta e poderia ou não se concretizar... Mas, apenas exatos dois meses depois, no final de Janeiro, ela estava dentro da minha casa, de mala e cuia, literalmente, para nos ajudar a realizar o I Encontro de Educação Livre do Triângulo Mineiro. Que aconteceu e foi muito lindo! (isso dá outro post).


“Que a estrada se erga ao encontro do seu caminho
Que o vento esteja sempre às suas costas
Que o sol brilhe quente sobre a sua face
Que a chuva caia suave sobre seus campos
E até que nos encontremos de novo,
Que Deus o guarde na palma da sua mão.”
Benção Irlandesa
A experiência de tê-los em casa foi transformadora. Quanto aprendizado! Um casal e seus três filhos, duas malas e algumas mochilas. Isso é tudo que eles carregam para viver! Nenhuma exigência, nenhuma necessidade essencial. Nós resolvemos ser vegetarianos essa semana também, mas foi escolha nossa. De minha parte, foi revelador. Meu lado materno se intensificou e consegui perceber que gostar de estar e cuidar de crianças é uma das minhas virtudes (sabiamente já apontado por minha médica antroposófica). Praticamente adotei os pequenos e me senti mãe de todos, fiz a eles o que faço pelos meus, meu coração se multiplicou... O desafio foi reconhecer o quanto sou controladora e organizadora, tanto a parte boa, quanto a ruim disso... Queria “cuidar” até da Sabrina (né, amiga?). Os meninos se adaptaram muito bem a tudo, dividiram espaços, brinquedos, banhos, broncas, filmes, chás, vitaminas, piscina, atenção e multiplicaram sorrisos, gargalhadas, brinquedos espalhados pelo chão, aprendizados. O Luís, nunca o vi tão prozeador e amistoso em pouco tempo de convivência, parecia estar com amigos de uma vida inteira.. Acho que vamos abrir mais a nossa casa para essas trocas... Grata ao Universo, pelo encontro de nossas famílias! De quebra, ainda conhecemos outras pessoas sintonizadas com vários de nossos ideais e que estão aqui, do nosso lado, e a gente nem sabia!


E como não consigo contar tantos dias em algumas palavras, escolho terminar com o relato de apenas um dia, o dia de hoje. De manhã, passeio ao clube, com mergulhos apaixonados da Luana, uma menina que tem se revelado uma verdadeira peixinha. No almoço, abobrinha recheada de carne moída e a frase do Yuri ao ver o prato: “Hum, eu amo isso!”. Depois do almoço, um pouco de vídeo-game e arte na cozinha: fizemos bolos. No final da tarde, visita do tio, leitura de gibis, dança livre na sala, um filminho, banho e história na cama. Um dia comprido e extremamente compensador. Agora é só esperar por amanhã...


Ah! Deixo dois sites da família da Sabrina que valem muito conhecer! O da “Escola com Asas” e o “Buscamos o Paraíso”.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

"Nas próximas férias, divirta-se com suas crianças - e deixe-as se divertirem!"

O texto a seguir é de Daniel Greenberg, um dos fundadores da Sudbury Valley School, uma escola livre e democrática que existe desde 1968, nos Estados Unidos. Acho que ele traz umas ideias bem pertinentes, especialmente nessa época do ano (férias escolares!). Espero que gostem. Ah, estou publicando minha tradução aqui com autorização do autor!

Nas próximas férias, divirta-se com suas crianças - e deixe-as se divertirem!


Daniel Greenberg (In: GREENBERG, Daniel. Education in America - a view from Sudbury Valley. Framingham: Sudbury Valley School Press, 1992. p. 92-95)


Tradução de Luís Gustavo Guadalupe Silveira

As férias de final de ano sempre nos dão a oportunidade de nos confrontarmos com a terrível bagunça que o Homem Moderno fez com a atividade natural mais básica das espécies -- a educação dos filhos. Jornais diários, revistas, programas de TV, todos trazem constantes lembretes de quão incompetentes nós temos sido em administrar nossos negócios nessa área crítica.
Primeiramente, algumas poucas palavras a respeito de coisas básicas. É inegável que adultos de todas as espécies foram dotados pela natureza com todos os instintos, reflexos, intuições e hábitos próprios necessários para realizar com sucesso a criação dos recém-nascidos membros da espécie. De outro modo, nenhuma espécie sobreviveria, já que a fase mais desamparada e vulnerável de toda a existência dos animais é a inicial, após o nascimento. Além disso, também está fora de questão que toda espécie é dotada do impulso funtamental de procriar. E, finalmente, a sobrevivência determina que os jovens de todas as espécies desenvolvam habilidades para crescer e se tornar adultos bem-sucedidos. Esses três fatos básicos da vida são universais, e são essenciais para a preservação de toda e qualquer espécie, em toda a escala evolucionária.
O que isso tem a ver com as férias, você pode estar se perguntando. Bem, a primeira coisa que você vê, digamos, no Middlesex News, é um monte de colunas com o seguinte tema: “Vixe, férias de novo! Estamos presos com nossos filhos! Não tem escola para ocupá-los o dia todo! O que faremos? Como lidar com eles, entretê-los, mantê-los longe de encrencas, nos livrar deles?” E os escritores, entra ano, sai ano, fornecem listas de fórmulas para aplacar o pânico dos corações dos pais por terem que lidar com suas crianças diariamente. Agora, isso não é estranho? Não fomos nós que decidimos ter esses filhos, em primeiro lugar? Nós não somos dotados das mesmas habilidades inatas para lidar com eles que tínhamos quando eles apareceram em nossas vidas? O que deu errado?
E então temos a segunda categoria de conselhos que obtemos de uma horda de colunistas bem-intencionados, nos dizendo como garantir que o tempo livre que nossas crianças passam fora da escola seja adequadamente utilizado, para que elas estejam aprendendo coisas úteis o tempo todo -- por exemplo, estudos sociais, ou conceitos matemáticos, ou história, ou geografia. A maior parte do tempo, dentro do possível, deve ser gasta incutindo conceitos educacionais aprovados e recomendados por profissionais. Deus nos livre de crianças que passem suas férias brincando e se divertindo do seu próprio jeito! Elas estariam “perdendo tempo.” Ninguém mais acredita que a natureza conferiu às nossas crianças o desejo inato de aprender sobre seu ambiente, de crescer para se tornar adultos bem-sucedidos? Será que alguém realmente acredita que a espécie humana seria pior do que atualmente é se nós déssemos um passo atrás para deixar que as crianças descubram as coisas sozinhas?
Pode ser útil dar uma olhada nas páginas dos escritos dos antropólogos, para ver o que podemos aprender com outras culturas a respeito do tratamento dispensado às crianças. A maior parte das sociedades indígenas ao redor do mundo exige que seus adultos possuam habilidades extraordinariamente refinadas, para que possam viver em harmonia dentro de seu ambiente natural. De fato, as habilidades necessárias excedem de longe aquelas que a maior parte dos povos ocidentais possui hoje, em nosso mundo tecnológico, no qual dependemos de objetos inanimados para substituir a força humana. Assim, os povos considerados “primitivos” devem desenvolver grande perícia em áreas tais como rastreamento, caça, resistência física, corrida de longa distância, paciência, controle emocional, repressão de todos os desejos e especialmente memorizar o conhecimento e a sabedoria de sua cultura. A pressão nas sociedades indígenas para fazer com que suas crianças cresçam dominando essas habilidades excede em muito a pressão da nossa sociedade para que nossas crianças aprendam matemática ou estudos sociais. Crianças nativas que não aprendem o “básico” quase certamente irão morrer, enquanto as crianças modernas no máximo irão terminar em empregos ruins ou ficarão sob a tutela de outros.
Agora, dada essa pressão nas sociedades nativas, como elas tratam as crianças? Novamente, a resposta é simples e virtualmente universal. Para preparar suas crianças para enfrentar os rigores da vida, essas sociedades dão a elas amor, afeição, carinho sem fim e, mais importante de tudo, liberdade para brincar praticamente o tempo todo e para observar livremente as atividades de sua aldeia. Supõe-se que as crianças irão querer, mais do que tudo, se tornar pessoas completas, para contribuir com suas sociedades como adultos: e a liberdade dada aos adultos é um reconhecimento do fato de que ninguém sabe melhor do que a Natureza como cada criança pode melhor atingir a maturidade. A Natureza é a mestra e as inclinações, os instintos e os impulsos naturais das crianças são considerados dignos de confiança para guiar as crianças pelos caminhos mais produtivos de suas vidas adultas.
Nós perdemos tanto o contato com nossa essência humana inata que temos medo de estar com nossas crianças, medo de confiar em sua habilidade para encontrar seu caminho na vida, medo de usar nosso próprio bom senso ao invés de depender de “especialistas” em educação -- medo de ser.
Essa situação não tem remédio? Não sei. Mas ao menos nós podemos tentar. E cada um de nós pode começar nas próximas férias, fazendo coisas que gostamos com nossas crianças, permitindo que nossas crianças tenham a liberdade para fazer as coisas que gostam, e por nos surpreender ao ter férias tão prazerozas com nossas crianças que nós, tanto quanto elas, fiquemos extremamente infelizes quando fevereiro chegar e elas tenham que retornar para a escola novamente!