segunda-feira, 1 de junho de 2015

Encontros


Os Encontros Nacionais, Regionais e Municipais de Adolescentes, dos quais participei de 1995 a 2002, além das Prévias, das reuniões de organização dos Encontros e afins, tiveram uma importância em minha vida que eu ainda não sei precisar muito bem. Olhando em retrospecto, tento lembrar o impacto de estar num espaço com mais de 300 adolescentes pela primeira vez, ou das Oficinas e Grupos de Trabalho que ministrei, das reuniões com educadores, do "Parabéns pra você" que um auditório inteiro cantou pra mim, das conversas com índios, do contato com tanta gente de lugares diferentes do país. Provavelmente, se escrevesse aqui a quantidade de coisa que quis falar nas mais diversas situações durante os encontros, mas não falei, acho que não terminaria este texto tão cedo. (Aparentemente, eu "era" meio tímido e inseguro). Vou tentar descrever o que acredito que toda essa experiência me trouxe de crescimento e de confirmação de valores que hoje se concretizam na minha relação com a educação.

Os Encontros, como disse acima, representaram o primeiro momento em que me vi com dezenas de adolescentes no mesmo lugar. Para aqueles que estudaram em escolas convencionais, isso era uma experiência cotidiana. A minha escola era pequena, era diferente de todas as escolas que eu conhecia - pra mim, aquilo tudo era novidade. Todas as palestras, Oficinas, Grupos de Trabalho e afins dos quais participei não me marcaram tanto quanto as conversas, as rodas de violão, as brincadeiras nos ônibus e nos momentos sem programação. Na verdade, o que mais me marcou naquelas outras atividades foi justamente o contato com muitas pessoas diferentes. Sentia estranheza quando algumas delas demonstravam estar maravilhadas com as Oficinas, com a participação dos adolescentes nas mesas-redondas e palestras. Aquilo era meio normal pra mim, pois diversas práticas que aconteciam nos Encontros eram comuns em minha escola: Oficinas, atividades coordenadas por adolescentes, atenção aos nossos desejos etc. 

Mas os Encontros também trabalhavam com uma coisa que não era comum em nenhuma escola tradicional: a visão do adolescente como um ser humano integral, dotado de inteligência, sensibilidade, emoções. Toda mudança que os Encontros pretendiam provocar nas pessoas eram mudanças que passavam pela afetividade, mais do que pela racionalidade, pela informação, pelo conteúdo. Os Encontros reconheciam a limitação dessa esfera e investiam nisto que todos nós adolescentes (à época) trazíamos à flor da pele: emoção. Havia palestras, mas havia massagem, toque. Havia Grupos de Trabalho, mas havia também danças circulares. Essas são um capítulo à parte. Normalmente, os momentos em que todos os participantes do Encontro se encontravam realizando a mesma atividade eram os momentos das danças. Elas abriam os Encontros, davam boas-vindas ao dia que começava, e encerravam os eventos. Nem todos dançavam, mas quem o fazia sentia uma conexão sagrada difícil de explicar. Mesmo quem não tem religião (ou nos casos da dança não ter nada a ver com a religião que praticava) não poderia negar que as danças nos colocavam em contato com algo maior que cada um individualmente. Pra mim, nos conectávamos ao grupo, presentes no momento e movimento da dança. Uma das minhas coisas favoritas.

Nem tudo era uma maravilha, claro. Eu ficava bastante irritado com as pessoas que afirmavam "não fazer ideia" do que faziam ali. Com a meia dúzia que fazia uma farra um pouco exagerada (e sem cuidado com os lugares e espaços ocupados). E, principalmente, com aqueles que se esforçavam para chamar a atenção. Aquilo me irritava um bocado. Problema meu, claro, não deles. Como eu não sabia lidar com a atenção, tentava ficar quieto no meu canto. Só participava quando achava que tinha certeza que iria contribuir com alguma coisa. Isso foi mudando aos poucos e nos últimos Encontros eu já estava mais relaxado. Mas demorou um pouco. Acredito que tenha havido gente que me conheceu sem nunca ter ouvido a minha voz :) Educador juvenil, fiquei beeem mais solto, mas daí já tinha passado da hora, e dei uma maneirada antes que ficasse meio ridículo. Mas mesmo caladão consegui fazer amigos, até namorar (!). Fiquei, inclusive, com uma pessoa que era (ainda é) um tanto diferente de mim: sorridente, simpática, falante, comunicativa (a lista de qualidades pode se estender muito mais...). Pois é, nos conhecemos em 95, nos tornamos amigos em 98, ficamos e começamos a namorar em 2000. E estamos juntos até hoje :) Essa história merece um post só pra ela. Depois.

Minha participação nos Encontros era sustentada por um trabalho voluntário na escola que se estendeu um pouco depois de eu ter completado o Ensino Médio. Bem antes de me tornar professor, tive a oportunidade de trabalhar em diferentes salas de aulas, com pessoas de diversas idades. Sou voluntário atualmente e respeito muito essa relação com o trabalho.

Sou grato a todos os educadores responsáveis pelos Encontros dos quais participei e pelos grupos dos quais fiz parte, aos amigos com quem dividi momentos alegres, aos desafetos que me ensinaram uma pá de coisa, às experiências que tive, às reflexões que todas as situações me provocaram... Sei que, se não fosse por isso tudo, eu seria uma pessoa diferente hoje. Trabalho com crianças e adolescentes e sei que o meu jeito "de igual para igual" de lidar com eles se deve aos Encontros. Meu interesse (ou melhor, paixão) pela educação deve muito a essa história toda aí. Pronto, já falei demais. Se eu pensar em mais coisa pra compartilhar, eu conto. Um dia.

Luís Gustavo

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Sobre os encontros na REDE SUS de Uberlândia

Ontem aconteceu o IV Encontro de Humanização do Parto e Nascimento (veja o folder) da Secretaria de Saúde de Uberlândia. E é com a alma em paz que eu compartilho com vocês meus sentimentos do encontro.
Um encontro leve, sem grandes pretensões a não ser o de nos encontrarmos, compartilharmos e crescermos enquanto movimento pensante a cerca da assistência obstétrica em nossa cidade.
Um encontro exitoso, por mobilizar mais de 100 profissionais (a maioria mulheres) de diferentes pontos da REDE SUS de Uberlândia e também alunos e profissionais de áreas afins.
Um encontro forte, por possibilitar a sintonia (e também o confronto) entre vários gestores, profissionais e usuárias da Rede.
Um encontro de pessoas, que se disponibilizaram e se doaram para que o evento acontecesse, assim, sem obrigação, assim, de coração, assim, sem impedimentos... Posso ser injusta se tentar nomear cada uma das pessoas que contribuíram para que o evento fluisse mas posso garantir que tenho o privilégio de estar rodeada de pessoas maravilhosas, algumas que apoiaram a ideia e a bancaram, e muitas outras que me ajudaram na parte "burocrática" da história. A todas essas pessoas, minha gratidão e minha disposição para contribuir quando também precisarem.

O encontro começou com a apresentação de uma reportagem aqui de nossa cidade (aqui o link) com o relato muito simpático de uma parteira tradicional, uma mulher que teve um parto normal e algumas profissionais, incluindo eu!
Logo após, demos início à apresentação do Protocolo do Parto Seguro pelo Hospital Municipal, seguido da reflexão sobre a interrelação do mesmo com todos os outros pontos da REDE pelos quais a gestante perpassa durante sua gestação e do bate-papo junto com os participantes do Encontro.
Um breve intervalo e inciamos a segunda mesa com a exibição de um vídeo-relato de parto de uma mulher que realizou a versão cefálica externa (VCE) durante sua gestação. Exibimos o trecho inicial desse vídeo antes da apresentação mais teórica sobre o procedimento da versão cefálica e suas evidência científicas quanto a segurança e indicação dessa manobra, a apresentação do ambulatório de VCE no Hospital Municipal e a conversa com uma mulher (a mesma do video e querida amiga) que passou pelo procedimento, seguido de um interessante bate-papo.
Encerramos o evento com lágrimas nos olhos pela emoção despertada pelo nascimento registrado no vídeo (acesse o vídeo aqui).
Minha gratidão a todos que compartilharam sua tarde comigo, especialmente aos profissionais que contribuíram com suas experiências nos dois temas apresentados. E ainda um agradecimento ao Hospital Municipal e seu engajamento pela melhoria na assistência obstétrica em sua instituição, a resposta das usuárias e os índices estão aí para provar que é possível sim mudar!!!























"O movimento pela humanização do parto pertence ao movimento maior de libertação do espírito humano e do ser humano concreto das formas aprisionadoras do passado (...). Humanizamo-nos quando nos resgatamos como sujeitos críticos, pensantes e dialéticos capazes de questionar e encontrar sínteses criativas para os desafios e as aparentes contradições da vida. Na humanização não se trata de mudar um protocolo por outro, nem de mero treinamento de profissionais para atuarem diferente. O fracasso dessas tentativas mostra que humanizar é muito mais do que uma troca de modalidade de ação. HUMANIZAR É MUDAR UM MODO DE SER, DE ENCARAR A PROFISSÃO, DE INTERAGIR COM COLEGAS E CORPORAÇÕES, DE LER PESQUISAS CIENTÍFICAS E DE LIDAR COM A PRÓPRIA SUBJETIVIDADE." 
                                                         (Adriana Tanese Nogueira, em seu livro: A alma do Parto)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Mais uma oportunidade de conversarmos sobre parto


Compartilhando feliz mais um fruto do meu trabalho. 
Acredito que é nos espaços de diálogo e reflexão que podemos encontrar os caminhos que queremos trilhar em conjunto. 
Estou muito realizada com o lugar que encontrei para contribuir com isso, que é justamente o de criar esses espaços!


Como o nascer do Sol

Um parto leve e fluido
Tranquilo, intenso e iluminante como o nascer do SOL
Foi assim, sem obstáculos
Dois dias de preparação do corpo e menos de 6 horas de trabalho de parto ativo
Passou dos 4 cm para a dilatação total num piscar de olhos
Ida para o Hospital às 22:00 da noite.
Nascimento às 23:00.
Parto Natural, no quarto, no chuveiro, mulher, marido e médico molhados, sem nenhuma intervenção, bebê direto para o colo da mãe, sem choro, suave transição...
E a doula surpreendida pela qualidade e respeito na assistência por profissionais que nunca tinha vista trabalhar...
Viva as surpresas da Vida!

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Artigos científicos sobre a importância do parto e as consequências ao longo da Vida

Parto bom é o parto mais seguro para a mãe e o bebê. Isso ninguém questiona.
E, recentemente, muito se tem dito e pesquisado comprovando que, na maioria dos casos, o parto normal sem intervenções é a via mais segura para ambos.
Agora, mais recente ainda e mais revelador tem sido as pesquisas microscópicas e suas descobertas sobre a importância da via de parto e suas consequências na saúde do bebê para o resto de sua vida!!!
Sim!!! Não é só no nascimento, não é só na amamentação, não é só na recuperação pós-parto, não é só na criação de vínculo... é para o resto da vida, na forma como nossas defesas se desenvolvem e nas doenças que poderemos desenvolver! E isso é muito sério!

Tem um documentário recente que fala só sobre esse tema e com os mais importantes cientistas da área, se chama MicroBirth e já está acessível para quem quiser assistir: http://muvi.es/w6605



E essa semana meu irmão biólogo/cientista me presenteou com vários artigos recentes sobre o tema, fruto da última Conferência que ele participou nos Estados Unidos esse ano. Daí, resolvi compartinhar esse tesouro com quem estiver interessado, pois isso merece muito chegar nas rodas de conversas cotidianas!
Seguem os links (todos em inglês) sobre as nossas cesarianas desnecessárias e seus riscos para o bebê!

http://improvingbirth.org/2015/01/huge-study-cesarean-birth-is-major-risk-factor-for-chronic-disorders-in-children/

http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2014/11/25/peds.2014-0596

http://pushformidwives.org/wp-content/uploads/2014/12/Sevelsted-2014-Cesarean-Section-and-Chronic-Immune-Disorders.pdf

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25162303

http://ki.se/en/news/cesarean-section-may-cause-epigenetic-changes

http://www.ajog.org/article/S0002-9378(14)00465-7/pdf

http://commonhealth.wbur.org/2014/06/birth-canal-bacteria-c-section

http://sfari.org/news-and-opinion/conference-news/2014/society-for-neuroscience-2014/cesarean-birth-alters-immune-system-social-behavior-in-mice

http://www.nature.com/nm/journal/v14/n11/full/nm1108-1169b.html


terça-feira, 14 de abril de 2015

Mais um parto: com dor

Um longo, intenso e profundo trabalho de parto... Veio chegando devagar... preparando a mãe ao longo de dias, lhe fazendo confiar e aceitar que nem sempre as coisas saem como o planejado. E assim foi até nascer. 

Não foi o parto dos sonhos
Não dilatou tão rápido quanto o imaginado
Não veio assim tão naturalmente a vontade de fazer força
Não escorregou para a vida
E doeu na carne e na alma
Doeu muito
E da dor, da exaustão, da luta
Nasceu um "samurai"
Lutando bravamente desde o início
O choro forte para espantar os Medos

Sim, foi belo
Sim, a mulher se entregou, se permitiu
Se partiu e se refez várias vezes
Força nas pernas
Fluidez nos quadris
Conexão com si mesma
E um homem a apoiá-la, ampará-la
Lembrá-la de sua vontade

Sim, a equipe acreditou
Também cansou 
Se questionou e se refez
Em harmonia, exatidão e gratidão

E eu ainda a pensar, viver e contemplar
os Mistérios da Vida
E a agradecer, por não me contentar a ver 
só o que se mostra num primeiro instante

Mais um Parto


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Desabrochar

Ontem foi mais um dia de acompanhar um casal se transformando pela chegada de um filho, ou melhor, uma filha, uma pequena guerreira que vem para despertar a entrega, a confiança, o instinto, a força e a delicadeza da Vida.

Um processo intenso, de se permitir dançar com a música incerta, com a falta de garantias, com o descontrole... e que dança bonita!!! Uma mulher lutando contra seus medos e um homem inteiro, seguro e imensamente carinhoso. Uma mulher que cresceu e se transformou grandiosamente em mais de 18 horas de trabalho de parto, com bolsa rota e mecônio. Da extremo racional para a libertação do instinto. Coisa linda de se testemunhar!

Por fim, uma tranquila e ponderada decisão em conjunto, médica e família, por uma cesariana por distócia de progressão + angústias sobre o mecônio... Um nascimento de uma menininha forte, saudável e linda. Um pai com uma alegria que não cabia em seu corpo, a festa contagiando todos por perto...

E o coração da doula em paz... por sentir a transformação e o sagrado desse momento... por mais uma vez admirar a disponibilidade, entrega e parceria da médica com o processo (ainda escrevo só sobre isso!), por saber que não é a via de parto em si, mas sim como vivemos e recebemos esse momento... Mais uma criança bem-vinda ao nosso Mundo!