segunda-feira, 12 de março de 2018

Cicatrização

Esse mundo nem sempre me cabe
Sou mais
Sou vasta
Não me contento com falsos limites
Extensão
Sou mais
Me expando
Rompendo barreiras, limites, contornos

Com raízes, me aprofundo
Em mim
Em minha história
Cada risco,  cada ferida, cada cicatriz
Me conecta
Me marca, me faz mais eu

Rasguei, cortei, sangrei
Me arranhei com minhas próprias garras
Sou fera
Sou onça
Sou árvore

Carrego marcas de longe
De minhas batalhas
Naquela outra vida
Naquele outro tempo
Naquele outro círculo de mulheres
A gente juntas

Hoje me curei
Nesse espiral
Das nossas gargantas caladas
Enforcadas, apunhaladas
Sufocadas, queimadas

Me reconheço e sou maior
Ao nosso lado
Em círculo

Alessandra 11/03/2018

sexta-feira, 9 de março de 2018

Assim eu AMO

Vem
Chega mais perto
Vem, de mansinho
Como quem não quer nada
E de repente
Um beijo
Um namoro
Uma noite
Um casamento
Um apartamento
Um filho
Uma casa
Uma filha
Uma escola
Um vendaval
Uma calmaria
UMA VIDA JUNTOS


Meu amor,

Eu ainda te amo
Ainda me descubro apaixonada
Aprendo com você Todo dia

"Você ainda quer morar comigo?"






quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Entrelaçadas e Costuradas

Uma cena
E toda uma Vida representada
Uma cena
e a História de tantas mulheres
Entrelaçadas e Costuradas

Tirei essa foto esta semana
Minha tia
Minha mãe
Eu e minhas roupas
Entrelaçadas e Costuradas

Desde sempre
A tia, a máquina de costura e os doces caseiros
Desde sempre
A tia, sua memória e o almoço de domingo
Desde sempre
Entrelaçadas e Costuradas

Me emocionei com essa imagem
Tão corriqueira
Mulheres cuidando de outras mulheres
Mulheres cuidando de mim
Mulheres fortes, guerreiras e a serviço dos Outros
De Mim
Curvadas, Agachadas, Acocoradas (minha tia tem 79 anos e se agacha que nem uma menina!!!)

Era para ser corriqueiro
Cortar uma barra, dar um pontinho aqui, outro acolá
Consertar pequenos defeitos
Foi uma Lição de Vida e Inspiração
Preciso Honrar, Agradecer e Reverenciar
As mulheres que vieram antes de mim
Com suas linhas e embaraços de Vida
Com suas linhas e limitações
Entrelaçadas e Costuradas




quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Dentro de um abraço

Dizem que dentro de um abraço cabe até uma penteadeira
Ah não, isso é dentro do coração (já dizia a música)
Mas sinto aqui comigo que isso vale para alguns abraços também

Dentro desse abraço aqui cabem tantas histórias
Tantas vidas compartilhadas
Tantos encontros em dias (na verdade muito mais madrugadas) de ver a vida nascer
Tantos cursos e descobertas
Tantas risadas
Tantos tropeços
Tantos choros emocionantes

Dentro de um abraço amigo
Cabem olhares que brilham
Cabe colo que acalenta
Cabe vibrar pelas conquistas
Cabe só ficar em silêncio
e cabe falar pelos cotovelos (3 horas seguidas em um café e ainda chegar em casa e mandar um audio pelo whatsapp de algo "muito importante que acabei de lembrar e preciso te contar")

Mas dentro desse abraço dessas duas amigas
Cabe ainda muito mais
Cabem segredos incontáveis
Cabe pedir ajuda para algo impossível
Cabe sonhar em mudar o mundo
Cabe brincar sem compromisso
e cabe subir em qualquer palanque
Pegar o microfone e lutar
por partos e nascimentos mais seguros
e também por mais abraços quentes e amigos

Dentro de um abraço
Cabe a minha admiração, honra e gratidão por ter vocês duas em minha Vida

Feliz Dia... que venham muitos outros abraços!!!






segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Um brinde à minha Vida

Ontem, dia 26 de novembro, completei mais uma volta em torno do Sol.
E quanta coisa para agradecer, honrar e comemorar... Esse ano que se passou foi aquele em que abri meu coração para conhecer e acolher as minhas sombras.
Deixei minha mulher selvagem aflorar, me encantei e me assustei com ela.
Tenho estado mais em paz comigo mesma. Me admirando nos espelhos da Vida... corpo, alma, coração, profissão.
Descobri a umbanda e me reconheci nesse lugar de conexão espiritual.
Assumi que não sou Santa embora ainda morra de medo de decepcionar meus pais e todas as outras autoridades por mim reconhecidas.
Ano que me permiti voar sozinha algumas vez apesar do medo.
Ano que me senti reconhecida profissionalmente pelo que amo fazer.
Ano que acreditei em mim.
Ano que reforcei laços antigos de amizades da adolescência e criei novas e fortes conexões com pessoas incríveis. Ano que voltei a namorar e ser paquerada diariamente pelo meu amor-marido-companheiro. Dia 26 de novembro do ano passado passei sozinha em um quarto de hotel em uma viagem profissional bebendo um vinho maravilhoso que o Hotel me deu de presente. E foi maravilhoso.
Esse ano passei "Brindando a Vida". Brindando os encontros maravilhosos que a Vida me ofereceu. Junto de Mulheres que eu admiro e ainda tenho a honra de ser amiga. Dançando MUITO, com a minha Sombra e a minha Luz. Gratidão a todos os que brindaram comigo, virtualmente e pessoalmente.



quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A partida da Otsu

E ela partiu. Na hora do almoço. 
Esperou a família toda chegar em casa para enfim descansar. 
Nossa cãopanheira de 13 anos. Uma Akita dócil, silenciosa, e super paciente com crianças. 
Estava velhinha e há cerca de dois meses começou a dar sinais de "velhice". Menos interesse em brincar, menos apetite, uivos de dor e dificuldade para andar... optamos por não intervir cirurgicamente (tinha opção por identificação de um tumor) por saber que os sinais faziam parte da idade e o procedimento não aliviaria sua dor.
E ela se manteve estável até ontem, comendo e interagindo quando a gente lhe dava atenção. 
Hoje amanheceu com gemidos de desconforto, passou a manhã mostrando mais cansaço e quando finalmente o Gu chegou para almoçar e fez um cafuné, ela se permitiu descansar. 
A gente vai sentir sua falta Otsu... do seu rabinho balançante, das viagens nas espaço-naves do Yuri e da Luana, nos passeios pelo bairro, nos banhos demorados por causa das suas 3 camadas grossas de pêlo, da sua mania de dormir na parede encostada no quarto dos meninos, dos seus pulos e adestramentos, do seu olhar doce e sempre vigilante. 
Gratidão pelo tempo e carinho compartilhados.



















quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Cansei de ser Santa

E a espiral que insiste em girar me trouxe para perto do ponto inicial novamente
Um ano se passou desde o Vendaval que me desorganizou e me levou para outro lugar em mim mesma, estranhamente familiar
Abri janelas e portas há tempos confortavelmente fechadas
Sai do ninho

Me permiti viajar sozinha
Sair com amigos, rir, beber
Trocar confidências
Flertar, me sentir desejada                                      
Emagreci e ousei me expor
Expus meu corpo
Ao dançar, me revelei

Finalmente conheci a Umbanda
e fui tomada pelo Sagrado
pela magia e espiritual
Senti na pele e no coração a força de meus Guias
Minha imperfeição foi acolhida
Reconheci meu lugar

Ah!
E fui me abrindo, me sentindo, me experimentando
Reconfigurando minha sexualidade
Atravessando tabus, medos, vergonhas
Sentindo dores profundas... dores de morte e vida
Profundos dilemas
De luta por mim mesma
Sintomas e mais sintomas no útero, na vagina, na alma
Ao mesmo tempo
Uma força descomunal, um poder imenso em mim mesma
Libertação e desejos a flor da pele
Dona de mim, do meu corpo, do meu prazer


Há um ano, me deparei frente a frente com minhas sombras
e foi um mergulho profundo nas minhas próprias entranhas
Sombras, lama, escuros
Eu, menina, com medo de pisar no fundo do rio
Fui arremessada para o meio do mangue 
Onde apesar do desconhecido, descobri Vida

E eis que me encontro novamente me descamando, me despindo, me expondo, me revelando
como uma serpente, em troca de pele

E ainda com medos e mais medos
Medos da menina que precisa corresponder a todas as expectativas
Que se mescla ao ambiente para se ocultar ou para ser vista em conformidade
Ela ainda me  habita
E a cada nova descamação, mais profundamente eu me enxergo

Não sou Santa
E não preciso ser
Santa não peca, não erra, não sente medo
Santa não deseja, não fala palavrão, não bebe
Não sou Santa
Sou Humana
Sou Terra e Sou Fogo
Sou Mãe, Sou Esposa e Sou Mulher
Sou Família e Sou Só
Sou tantas
Não sou Santa
Mas ainda assim Sou Sagrada
Sagrada em ser assim

Com essa mesma LAMA que limpa, purifica, cura
Essa lama que regenera, que transforma e transmuta
Entre a Terra e a Água
Lama que nutre, que abastece, que sustenta

Com essa SERPENTE, eu me livro do que já não serve mais        
Eu deixo minha casca seca, me desgrudo do que já não sou
Já tenho uma pele nova
Mais viva, mais brilhante, mais potente
Eu mesma me recrio
E com meu veneno, me resgardo
E com meu veneno, com a dose certa, curo


A idade, a lama, a serpente, a umbanda, a dança me trouxeram aqui
E sou grata a tudo que vivi e a tudo que ainda vou viver

Sou grata ainda e acima de tudo ao AMOR
que me acompanha em forma de um homem
Um companheiro de recriação
Que me permite transmutar enquanto me oferece seu porto seguro
Eu escolho, todo dia, estar ao seu lado

Não sou Santa, e não preciso ser
Mas ainda assim, sou Sagrada