quarta-feira, 12 de março de 2014

Você é capaz de confiar que seus filhos irão educar a si mesmos?

O texto que publico a seguir é a tradução da introdução de um livro bem legal sobre os princípios da Sudbury Valley School, gentilmente autorizada pela autora, Mimsy Sadofsky. Espero que provoque boas reflexões!




Você é capaz de confiar que seus filhos irão educar a si mesmos?[1]
Mimsy Sadofsky

Tradução de Luís Gustavo Guadalupe Silveira


          Quando eu pensei sobre qual seria a melhor maneira de explicar o que é a Sudbury Valley School, decidi que eu queria explicá-la como mãe. Eu sou mãe de três filhos que fizeram parte daquilo que começou como um experimento muito empolgante e acabou se mostrando uma ideia solidamente comprovada que tem dado certo há três décadas[2].
          A Sudbury Valley School surgiu da agitação e do descontentamento que marcaram o final dos anos 1960. A maioria de vocês deve ter visto o filme “Hair” – ou talvez não, mas certamente vocês pensam nos anos 60 como um tempo de liberdade, desconforto e insatisfação com o status quo político e, por último mas não menos importante, um tempo de experimentações. Do ponto de vista dos ultrassofisticados anos 90, olhamos para os anos 60 com uma pontinha de desdém. O que certamente não é uma atitude muito correta, mas, de todo modo, a instituição da qual estou falando começou, foi um tipo de produto e de algum jeito sobreviveu àqueles anos impetuosos.
          Uma das ideias que pairava no ar nos anos 60 era a da escola “livre”. E foram fundadas várias escolas cuja ideia central era a liberdade. Naquele tempo, Framingham era um subúrbio calmo de Boston, e ali uma escola que incorporava toda a liberdade razoável era inaugurada silenciosamente por um grupo de pessoas muito quadradas e convencionais. As ideias por trás dessa escola eram muito simples, até elementares. À medida que a escola foi se desenvolvendo ao longo do tempo, os princípios se mantiveram os mesmos, mas a profundidade da compreensão alcançada pelas pessoas envolvidas com a escola sobre esses princípios cresceu imensamente. Eu sou uma sobrevivente, e longe de ser a única, dessas três décadas de trabalho e conhecimento crescentes.
          Muitos de vocês devem ter ouvido falar de planejamento base zero. A Sudbury Valley foi um tipo de escola “planejamento base zero”. Todos as preconcepções sobre o que uma escola precisava fazer eram considerados supérfluas até que se provassem úteis e necessárias. Recentemente, li um artigo na revista American Heritage que falava sobre como essas ideias sobre educação são recentes; noções que pareciam, e ainda parecem para a maioria das pessoas, essenciais para se definir uma escola. Cem anos atrás, somente 3% da população se formavam no ensino médio, e eles definitivamente não estavam tendo uma educação “prática”. Pouco mais de cinquenta anos atrás, esperava-se que somente 50% da população chegassem ao ensino médio e somente em torno de 20% eram considerados aptos para a universidade.
          As pessoas que fundaram a Sudbury Valley sentiam que era totalmente natural para os seres humanos, assim como para todos os outros animais, aprender como sobreviver em seu habitat natural. No caso dos humanos, isso significa que seu cérebro tem que se desenvolver completamente e tem que desenvolver ideias cada vez mais complexas sobre o mundo que os cerca. Eles têm que desenvolver uma visão de mundo e têm que refiná-la ao longo de toda a sua vida. Qual seria possivelmente o melhor jeito de fazer isso? Parece que o melhor jeito é deixar a natureza seguir seu curso; permitir que cada indivíduo floresça completamente e ganhe a confiança habitual das pessoas que sabem o que querem da vida e que descobrem sozinhas como conseguir isso. Parece que essa tarefa de descobrir as coisas e tentar melhorar os próprios conhecimentos, de ir atrás do que você quer, é algo que cada ser humano faz desde a mais tenra idade, e o principal fato que muda quando as pessoas crescem e se tornam adultas é que as coisas que elas desejam e os meios que são capazes de usar para alcançá-las podem se tornar mais complexos e sofisticados. Nós sentimos que uma criança autorizada a desenvolver essas capacidades naturais de tentar compreender o mundo ao máximo seria a criança que melhor se encaixaria numa sociedade que exige criatividade e uma extraordinária capacidade de adaptação. E era totalmente claro pra nós o que era necessário – adaptabilidade e criatividade. Então fizemos o compromisso de educar nossos próprios filhos de um modo que parecia fazer sentido pra nós, não importando o quão “estranho” isso fosse.
          Seres humanos, e isso era claro mesmo no final dos anos 60, em breve iriam viver numa sociedade pós-industrial e tinham que se ajustar a essa realidade. Trabalhadores de linha de montagem eram cada vez menos necessários. Para os fundadores da Sudbury Valley, parecia que os seres humanos que se desenvolviam livremente, sem qualquer obstáculo desnecessário à sua criatividade, e cientes de que a responsabilidade por sua própria vida estava em suas mãos, provavelmente iriam se encaixar mais confortavelmente num mundo que estava começando a mudar numa velocidade vertiginosa.
          Numa época em que a revolta e o questionamento estavam no ar, ainda parecia óbvio para nós que havia componentes muito importantes em nossa sociedade que davam força e coesão a ela. Esses componentes nos deram a força para fazer a revolta, na verdade. Um deles era a democracia. Eu acho que a maioria de nós não aprecia o quanto a democracia está profundamente entranhada em cada um. Para nós é uma questão de princípios que uma grande quantidade de coisas é decidida pela maioria. Uma maioria de votos elege o governador do estado. Uma maioria pode derrotar uma proposta feita por plebiscito, ou transformá-la em lei. Não vemos nada demais em formar clubes ou grupos civis que tomam decisões democraticamente. Em New England, a maioria vive em cidades que são conduzidas segundo o modelo de Assembleias Municipais. Às vezes essas Assembleias podem parecer irritantemente incontroláveis, mas certamente são democráticas! Isso está profundamente arraigado à experiência Americana. Parece fazer muito sentido que uma escola permita que as crianças ganhem experiência real com um governo democrático ao governar democraticamente a instituição que elas estão usando para obter sua própria educação.
          Assim, dois dos aspectos fundamentais de uma escola em que os fundadores da SVS estavam interessados eram liberdade e democracia. E juntos eles apontam para a característica primária que é imprescindível em nossa instituição: confiança; confiança que as pessoas irão descobrir o que precisam, como vão chegar lá, como construir uma comunidade.
          E então, uma terceira ideia se apresenta: responsabilidade. Cidadãos que crescem numa sociedade que oferece liberdade e confiança devem se tornar responsáveis. Como você torna uma pessoa responsável? Todo mundo sabe a resposta: você confia responsabilidade a ela. Isso só pode ser aprendido na prática.
          Essas eram as ideias que se enquadravam razoavelmente bem nos anos 60 e se encaixavam solidamente no todo que iria se tornar a Sudbury Valley. O motivo pelo qual a escola ainda existe é que essas ideias formaram uma unidade coerente e razoável, foram firmemente estabelecidas, batalhadas com firmeza, e fortemente defendidas ao longo dos anos.
          Eu vim aqui nesta manhã como uma sobrevivente desses anos de experiência. Mas uma sobrevivente muito especial: em 1968, quando todas essas ideias praticamente não tinham sido testadas, meu marido e eu fizemos um compromisso que teve amplas consequências para nossa família: nossos filhos foram matriculados e se tornaram alguns dos estudantes originais nessa escola.
          Muitas vezes, nos anos que se seguiram, eu me lembro do que sentimos à época. Estávamos extremamente empolgados, pois os princípios dessa nova escola pareciam tão razoáveis, tão corretos; e estávamos extremamente apavorados, pois era claro que mandar crianças para uma escola assim significava abrir mão de qualquer traço de controle sobre suas vidas escolares. Frequentemente, significou não ter a menor ideia do que se passava em suas vidas escolares. Significava que estávamos depositando um nível de confiança em nossas crianças que era total e completamente diferente de qualquer coisa que as pessoas que conhecíamos (nossos pais, ou nossos amigos ou nossos exemplos de vida) considerariam conceder. Assim, estávamos apavorados. Trinta anos depois, não estamos mais com medo, mas mesmo agora, com toda a nossa experiência, cada pai que envia sua criança para uma escola assim sente os mesmos medos.
          Você certamente ficará inseguro ao falar para uma criança de cinco ou oito anos de idade: “Nós confiamos que você irá descobrir o que você quer e o que você necessita na vida, e também descobrirá como conseguir isso. Vamos permitir que você fique num lugar que reconhece sua habilidade para fazer isso, que respeita você da mesma maneira que um adulto é respeitado, e que também apoia você com uma atmosfera de gentileza e afetividade enquanto você está aprendendo a conduzir sua própria vida.” Mas quando você pensa a respeito, percebe que as pessoas nascem com os cérebros prontos para isso; elas estão adquirindo informação e aprendendo como construir uma visão de mundo desde a mais tenra infância. Quando você pensa em quão difícil é começar do zero e dominar sua língua nativa em poucos anos, fica mais fácil confiar que aquele menino de seis anos, ou de dez anos, irá continuar compreendendo gradualmente o ambiente em que vive. E quando você pensa em como é muito mais difícil pra você, se já tiver passado dos quarenta, programar um videocassete do que é para o seu filho de nove anos de idade, então talvez você possa parar de se preocupar, ou pelo menos pegar mais leve por alguns momentos!
          A Sudbury Valley aceita pessoas de todas as idades, a partir dos quatro anos[3]. Ela oferece um diploma de ensino médio. Há aproximadamente duzentos estudantes. Todos estão fazendo o que querem o tempo todo, e os grupos de estudantes (e equipe) mudam constantemente, assim você pode fazer coisas diferentes em lugares muito diferentes com diversas pessoas num único dia; ou fazer uma coisa sozinho, ou com um grupo do qual você gosta, durante um mês inteiro.
          Os interesses são buscados com gosto, e não há juízo de valor – exceto quando a questão é segurança, legalidade ou padrões da comunidade – sobre as prioridades escolhidas por alguém. Assim, um estudante pode decidir jogar Dungeons and Dragons, ou Magic[4], ou brincar com ursinhos de pelúcia por semanas ou meses e ninguém na escola jamais irá sentir que ele esteja perdendo seu tempo. Infelizmente, muitos estudantes irão encontrar pessoas de fora que não irão entender a intensidade da experiência, a profundidade do conhecimento que se pode tirar dessas atividades. Em nossa escola, não nos preocupamos. Nós ouvimos o vocabulário sofisticado, nós vemos as crianças se tornarem extraordinariamente articuladas, nos maravilhamos com sua criatividade e nos surpreendemos com seu bom senso. De verdade.
          Por exemplo: Hoje há uma criança desse município que, juntamente com sua irmã caçula, é uma estudante da Sudbury Valley. A estrutura democrática da Sudbury Valley inclui um corpo disciplinar, chamado Comitê Judicial, formado por sorteio de membros de diferentes idades, que investiga e atua a partir de reclamações escritas sobre violações de regras. Eu devo ter me reunido nesse comitê com pessoas que tinham tanto bom senso quanto a jovem garota da qual estou falando, e devo ter visto outras que eram muito criativas para bolar punições para os violadores de regras, mas eu nunca vi ninguém que superasse sua habilidade para ser brilhante e criativa ao mesmo tempo.
          Fica claro pra mim que trabalhar de igual pra igual com pessoas mais velhas e mais novas para resolver problemas na comunidade é um dos maiores presentes que podemos oferecer às crianças. E aos adultos. Eu não acho que nenhum de nós entendia o quanto isso era verdade nos idos de 1968; muitos de nós entendemos agora.
          Mas vamos voltar aos pais. É maravilhoso pensar que seu filho pode descobrir como resolver problemas, mas também é perfeitamente normal imaginar se ele irá ou não dominar frações algum dia. É perfeitamente normal ficar preocupado se o sucesso de seu filho como adulto não está condicionado ao fato dele notar a importância de certas coisas que a escola pública nos disse serem vitais. Bem, eles irão notar o que é importante. Eles tanto irão notar quais coisas são realmente importantes quanto irão descobrir como se tornar adultos completamente desenvolvidos. Porque um adulto bem-sucedido é um adulto que se sente livre para aprender coisas novas; se sente no controle de sua vida; e sabe como se divertir. Um adulto bem-sucedido é uma pessoa que tem bom senso, é gentil e cordial. Acho que nós queremos, em primeiro lugar, que nossos filhos sejam boas pessoas, em segundo lugar, que eles tenham as ferramentas necessárias para buscar seus próprios interesses e, por fim, que se sintam parte da comunidade, o que quer que isso signifique pra eles. Pode ser que não expressemos nossos ideais dessa forma quando pensamos a respeito da educação de nossas crianças, mas quando pensamos sobre suas vidas, poucos de nós desejaríamos algo muito diferente.
          Acho que a Sudbury Valley prepara crianças para serem adultos competentes, bem-sucedidos e o único motivo pelo qual uma pessoa sobrevive tendo filhos numa escola dessas é porque ela faz cada pai e cada mãe dar um passo para trás e examinar seu próprio conjunto de valores, e ver que suas crianças não estão fora dos valores de sua família.
          É difícil, enquanto nossas crianças estão formando a si mesmas, e parecendo completamente diferentes umas das outras e diferentes de você, imaginar a extensão de nossa influência sobre elas. Mas certamente, uma criança intelectual provavelmente irá surgir numa família que valoriza muito a leitura e o conteúdo de livros e museus. Um ser humano atencioso e gentil não é um fruto improvável de pais atenciosos e gentis; é mais a confirmação da regra. Seus filhos, não importa como as coisas estejam indo durante seus anos mais rebeldes, muito provavelmente irão se espelhar nos valores que foram exemplificados pela família.
          De fato, exemplos de comportamento em que se espelhar são a razão mais importante de termos adultos numa escola como a nossa. Os estudantes precisam entender como os adultos vivem suas vidas, como os adultos tomam decisões, como os adultos estudam e aprendem. Eles precisam ver estudantes de todas as idades e também adultos envolvidos nessas coisas, ver a vida acontecendo ao redor deles. Eles precisam ver pessoas que amam seu trabalho trabalhando. Eles usam essa informação para modelar a si mesmos; para descobrir como a vida funciona e como eles desejam trabalhar.
          O trecho a seguir é a fala de um ex-estudante sobre esse assunto. Ela foi extraída de entrevistas feitas por Hanna Greenberg e publicadas no livro Kingdom of Childhood[5]:

          Você pega um certo tanto de sua própria personalidade de outras pessoas. Parte do que molda você naquilo que você é é aquilo que você colheu ao seu redor. Você tem essa vasta gama de atividades diferentes acontecendo e diferentes personalidades participando delas e diversas pessoas com as quais você interage. Você pega o que deseja disso tudo, mas a coisa toda não molda ninguém. Todos são moldados por partes que colhem do todo. Se a coisa toda formasse todo mundo, não funcionaria. Não haveria personalidades distintas. Seríamos ciborgues. Não é assim que funciona. Você tem sua própria cabeça e você a constrói sozinho. Você não pega tudo que seus amigos pegam – você não vai sempre ao mesmo tipo de curso, ou pratica os mesmos esportes. Você escolhe o que é interessante pra você.
          Eu nunca tive medo de adultos. Não que eu não respeite as pessoas. Eu respeito crianças de quatro anos. Meu respeito pelas pessoas é igual. Não interessa se você é famoso ou se você é uma criança pequena ou se você é um adulto ou o que quer que seja. Eu não aprendi isso só na escola, mas também na minha criação. Isso faz diferença também. Quanto mais você for exposto a essas coisas, mais você tende a acreditar nelas e realmente incorporá-las em sua vida. Se você vê isso na escola, mas algo completamente diferente é praticado em casa, então você não está tendo tanta base assim. Você vê algo por oito horas e outra coisa durante as outras oito horas e você dorme no resto do tempo, então é uma corda bamba. Você tem que encarar essas coisas com cautela e dizer, “Bem, essas pessoas fazem isso desse jeito, mas minha família faz de outro modo...” e então você tem que escolher qual é o jeito certo de agir. Definitivamente, ajuda muito ter as mesmas filosofias, as mesmas práticas e as mesmas crenças em casa e na escola.
          A maior parte do que eu aprendi, aprendi de outras crianças. Eu não estou dizendo que não aprendi nada nas aulas que fiz. Eu aprendi. Mas o grosso do que você aprende na Sudbury Valley é vida. Você aprende a lidar com pessoas, como fazer coisas e como organizar tudo que você aprendeu. Algumas coisas você irá aprender vendo adultos em ação, ou participando com adultos. Eu fui parte de comitês e coisas do tipo onde podia haver pessoas me mostrando como fazer. Mas a maior parte – 99%, eu acho – do que você aprende, aprende de outras crianças, e isso tem a ver com a vida – como você vive e como as coisas acontecem e o que está rolando. Não é tipo, “Eu aprendi isso dele e dela.” Nós simplesmente aprendemos isso juntos. Algumas coisas você aprende se relacionando diretamente com outras crianças, quando você pode ver o aprendizado acontecendo. Mas na maior parte do tempo é simplesmente porque você se sentou e conversou, ou alguém está dizendo alguma coisa e uma ideia surge, se destaca e se desenvolve.

          Um aspecto interessante de ter crianças em que se confia para tomar as próprias decisões e para administrar suas vidas é que não acontece muita rebeldia. Os anos da adolescência podem não ser uma moleza, mas também não são o fim do mundo. Crianças que não são tratadas como prisioneiras não precisam ficar nervosas por estarem sendo tratadas como prisioneiras. Isso faz uma enorme diferença para a vida familiar! Grande parte dos conflitos familiares normais desaparece quando você trata suas crianças com o mesmo respeito que você espera delas. E uma coisa engraçada acontece quando você educa crianças tratando-as com respeito: elas respeitam tudo: você, outras pessoas, animais, até insetos e peixes!



[1] Introdução do livro Reflections on the Sudbury School Concept, editado por Mimsy Sadofsky e Daniel Greenberg, publicado em 1999. p. 1-10.
[2] NT: a SVS foi fundada em 1968.
[3] Mais especificamente, 21 anos costuma ser a idade máxima dos estudantes (NT).
[4] Um jogo de RPG de mesa e um card game, respectivamente (NT).
[5] GREENBERG, Daniel; SADOFSY, Mimsy (ed). Sudbury Valley School Press: Framingham, 1994.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Venha nos visitar!

Saudades de escrever... Um bom tempo se passou desde o último post e com o tempo, muitas vivências, sentimentos, acontecimentos e pensamentos... É incrível como mudamos a todo instante. Teimosos são aqueles que insistem em permanecer no mesmo lugar, um dia após o outro! Eu tenho tentado deixar a onda me levar. Confesso novamente que ainda sinto medo (meu marido que o diga!), mas também aprendi a aceitar o medo e deixar ele passar por mim, sem que isso signifique jogar as âncoras e parar no meio do mar. Sinto o medo, ponho ele pra fora, durmo, e no dia seguinte, continuo a navegar... Mas antes do medo, quero contar da vida, do dia-a-dia, das idas e vindas... 

Foram férias, viagem pra casa da vó, tratamento antroposófico, partos, encontro de educação livre, visitas em casa, mudança de rumo no trabalho, construção de um projeto de comunidade de educação livre... e muito mais...

Aprendemos a fazer pão. O Luís Gustavo descobriu sua habilidade em sovar e agora raramente compramos pão, aqui a preferência é o caseiro mesmo. O de fubá então... Junto com o pão, vieram mais questionamentos. E acabamos instituindo a segunda-feira sem carne (o salmão vai ter que mudar de dia!). Por mais que a gente tente, continuamos adorando rotinas! Kkkkkkk! Tem dia sem carne, dia do macarrão, hora de dormir...

E no meio da nossa rotina, abrimos a porta e o coração da casa para recebermos outra família em casa. Uma família convidada, que a gente não conhecia pessoalmente, com suas peculiaridades (vegetarianos e orgânicos!) e que encheu nossa casa de vida! É uma história que começou em novembro do ano passado, quando eu e meu marido participamos da I Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação (CONANE). Para começar, nos cadastramos para a hospedagem solidária. Quer dizer, pedimos casa para dormir com o intuito de economizar e trocar experiências. Acabamos conhecendo pessoas maravilhosas e vivendo coletivamente nesses dias que ficamos lá numa casa ecológica e vegetariana. Fizemos amigos, fogueira e caldos! Daí, nesse Encontro, dentre várias experiências de educação encantadoras e reais que já acontecem Brasil afora, conhecemos pessoalmente a Sabrina Bittencourt. Uma figura com propostas muito afins ao que fomos buscar por lá. Então a convidamos para nos visitar em Uberlândia e ela topou. Até então era só uma proposta e poderia ou não se concretizar... Mas, apenas exatos dois meses depois, no final de Janeiro, ela estava dentro da minha casa, de mala e cuia, literalmente, para nos ajudar a realizar o I Encontro de Educação Livre do Triângulo Mineiro. Que aconteceu e foi muito lindo! (isso dá outro post).


“Que a estrada se erga ao encontro do seu caminho
Que o vento esteja sempre às suas costas
Que o sol brilhe quente sobre a sua face
Que a chuva caia suave sobre seus campos
E até que nos encontremos de novo,
Que Deus o guarde na palma da sua mão.”
Benção Irlandesa
A experiência de tê-los em casa foi transformadora. Quanto aprendizado! Um casal e seus três filhos, duas malas e algumas mochilas. Isso é tudo que eles carregam para viver! Nenhuma exigência, nenhuma necessidade essencial. Nós resolvemos ser vegetarianos essa semana também, mas foi escolha nossa. De minha parte, foi revelador. Meu lado materno se intensificou e consegui perceber que gostar de estar e cuidar de crianças é uma das minhas virtudes (sabiamente já apontado por minha médica antroposófica). Praticamente adotei os pequenos e me senti mãe de todos, fiz a eles o que faço pelos meus, meu coração se multiplicou... O desafio foi reconhecer o quanto sou controladora e organizadora, tanto a parte boa, quanto a ruim disso... Queria “cuidar” até da Sabrina (né, amiga?). Os meninos se adaptaram muito bem a tudo, dividiram espaços, brinquedos, banhos, broncas, filmes, chás, vitaminas, piscina, atenção e multiplicaram sorrisos, gargalhadas, brinquedos espalhados pelo chão, aprendizados. O Luís, nunca o vi tão prozeador e amistoso em pouco tempo de convivência, parecia estar com amigos de uma vida inteira.. Acho que vamos abrir mais a nossa casa para essas trocas... Grata ao Universo, pelo encontro de nossas famílias! De quebra, ainda conhecemos outras pessoas sintonizadas com vários de nossos ideais e que estão aqui, do nosso lado, e a gente nem sabia!


E como não consigo contar tantos dias em algumas palavras, escolho terminar com o relato de apenas um dia, o dia de hoje. De manhã, passeio ao clube, com mergulhos apaixonados da Luana, uma menina que tem se revelado uma verdadeira peixinha. No almoço, abobrinha recheada de carne moída e a frase do Yuri ao ver o prato: “Hum, eu amo isso!”. Depois do almoço, um pouco de vídeo-game e arte na cozinha: fizemos bolos. No final da tarde, visita do tio, leitura de gibis, dança livre na sala, um filminho, banho e história na cama. Um dia comprido e extremamente compensador. Agora é só esperar por amanhã...


Ah! Deixo dois sites da família da Sabrina que valem muito conhecer! O da “Escola com Asas” e o “Buscamos o Paraíso”.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

"Nas próximas férias, divirta-se com suas crianças - e deixe-as se divertirem!"

O texto a seguir é de Daniel Greenberg, um dos fundadores da Sudbury Valley School, uma escola livre e democrática que existe desde 1968, nos Estados Unidos. Acho que ele traz umas ideias bem pertinentes, especialmente nessa época do ano (férias escolares!). Espero que gostem. Ah, estou publicando minha tradução aqui com autorização do autor!

Nas próximas férias, divirta-se com suas crianças - e deixe-as se divertirem!


Daniel Greenberg (In: GREENBERG, Daniel. Education in America - a view from Sudbury Valley. Framingham: Sudbury Valley School Press, 1992. p. 92-95)


Tradução de Luís Gustavo Guadalupe Silveira

As férias de final de ano sempre nos dão a oportunidade de nos confrontarmos com a terrível bagunça que o Homem Moderno fez com a atividade natural mais básica das espécies -- a educação dos filhos. Jornais diários, revistas, programas de TV, todos trazem constantes lembretes de quão incompetentes nós temos sido em administrar nossos negócios nessa área crítica.
Primeiramente, algumas poucas palavras a respeito de coisas básicas. É inegável que adultos de todas as espécies foram dotados pela natureza com todos os instintos, reflexos, intuições e hábitos próprios necessários para realizar com sucesso a criação dos recém-nascidos membros da espécie. De outro modo, nenhuma espécie sobreviveria, já que a fase mais desamparada e vulnerável de toda a existência dos animais é a inicial, após o nascimento. Além disso, também está fora de questão que toda espécie é dotada do impulso funtamental de procriar. E, finalmente, a sobrevivência determina que os jovens de todas as espécies desenvolvam habilidades para crescer e se tornar adultos bem-sucedidos. Esses três fatos básicos da vida são universais, e são essenciais para a preservação de toda e qualquer espécie, em toda a escala evolucionária.
O que isso tem a ver com as férias, você pode estar se perguntando. Bem, a primeira coisa que você vê, digamos, no Middlesex News, é um monte de colunas com o seguinte tema: “Vixe, férias de novo! Estamos presos com nossos filhos! Não tem escola para ocupá-los o dia todo! O que faremos? Como lidar com eles, entretê-los, mantê-los longe de encrencas, nos livrar deles?” E os escritores, entra ano, sai ano, fornecem listas de fórmulas para aplacar o pânico dos corações dos pais por terem que lidar com suas crianças diariamente. Agora, isso não é estranho? Não fomos nós que decidimos ter esses filhos, em primeiro lugar? Nós não somos dotados das mesmas habilidades inatas para lidar com eles que tínhamos quando eles apareceram em nossas vidas? O que deu errado?
E então temos a segunda categoria de conselhos que obtemos de uma horda de colunistas bem-intencionados, nos dizendo como garantir que o tempo livre que nossas crianças passam fora da escola seja adequadamente utilizado, para que elas estejam aprendendo coisas úteis o tempo todo -- por exemplo, estudos sociais, ou conceitos matemáticos, ou história, ou geografia. A maior parte do tempo, dentro do possível, deve ser gasta incutindo conceitos educacionais aprovados e recomendados por profissionais. Deus nos livre de crianças que passem suas férias brincando e se divertindo do seu próprio jeito! Elas estariam “perdendo tempo.” Ninguém mais acredita que a natureza conferiu às nossas crianças o desejo inato de aprender sobre seu ambiente, de crescer para se tornar adultos bem-sucedidos? Será que alguém realmente acredita que a espécie humana seria pior do que atualmente é se nós déssemos um passo atrás para deixar que as crianças descubram as coisas sozinhas?
Pode ser útil dar uma olhada nas páginas dos escritos dos antropólogos, para ver o que podemos aprender com outras culturas a respeito do tratamento dispensado às crianças. A maior parte das sociedades indígenas ao redor do mundo exige que seus adultos possuam habilidades extraordinariamente refinadas, para que possam viver em harmonia dentro de seu ambiente natural. De fato, as habilidades necessárias excedem de longe aquelas que a maior parte dos povos ocidentais possui hoje, em nosso mundo tecnológico, no qual dependemos de objetos inanimados para substituir a força humana. Assim, os povos considerados “primitivos” devem desenvolver grande perícia em áreas tais como rastreamento, caça, resistência física, corrida de longa distância, paciência, controle emocional, repressão de todos os desejos e especialmente memorizar o conhecimento e a sabedoria de sua cultura. A pressão nas sociedades indígenas para fazer com que suas crianças cresçam dominando essas habilidades excede em muito a pressão da nossa sociedade para que nossas crianças aprendam matemática ou estudos sociais. Crianças nativas que não aprendem o “básico” quase certamente irão morrer, enquanto as crianças modernas no máximo irão terminar em empregos ruins ou ficarão sob a tutela de outros.
Agora, dada essa pressão nas sociedades nativas, como elas tratam as crianças? Novamente, a resposta é simples e virtualmente universal. Para preparar suas crianças para enfrentar os rigores da vida, essas sociedades dão a elas amor, afeição, carinho sem fim e, mais importante de tudo, liberdade para brincar praticamente o tempo todo e para observar livremente as atividades de sua aldeia. Supõe-se que as crianças irão querer, mais do que tudo, se tornar pessoas completas, para contribuir com suas sociedades como adultos: e a liberdade dada aos adultos é um reconhecimento do fato de que ninguém sabe melhor do que a Natureza como cada criança pode melhor atingir a maturidade. A Natureza é a mestra e as inclinações, os instintos e os impulsos naturais das crianças são considerados dignos de confiança para guiar as crianças pelos caminhos mais produtivos de suas vidas adultas.
Nós perdemos tanto o contato com nossa essência humana inata que temos medo de estar com nossas crianças, medo de confiar em sua habilidade para encontrar seu caminho na vida, medo de usar nosso próprio bom senso ao invés de depender de “especialistas” em educação -- medo de ser.
Essa situação não tem remédio? Não sei. Mas ao menos nós podemos tentar. E cada um de nós pode começar nas próximas férias, fazendo coisas que gostamos com nossas crianças, permitindo que nossas crianças tenham a liberdade para fazer as coisas que gostam, e por nos surpreender ao ter férias tão prazerozas com nossas crianças que nós, tanto quanto elas, fiquemos extremamente infelizes quando fevereiro chegar e elas tenham que retornar para a escola novamente!
 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Esquecemos a TV?! Como anda o nosso dia-a-dia...

Completamos mais de três meses sem acesso a canais abertos ou fechados de televisão aqui em casa... e, por incrível que pareça, já esquecemos dela, de como era e como a gente ficava preso naquela tela a maior parte do nosso tempo em casa. Isso são águas passadas...

Acordamos sem ela e assim continuamos o resto do dia e da noite. E o mais legal é a naturalidade com que as crianças a esqueceram, principalmente o Yuri, que ficava muito dependente dos desenhos animados... Agora ele acorda e corre para brincar com a cachorra, ou fazer poções mágicas que lhe dão superpoderes, ou desenhar monstros... Dias atrás levantei da cama e o ouvi brincando SOZINHO entre a cozinha e o quintal. Estava ele com um copinho de plástico conversando alegremente com ele mesmo (ou seria com nossa cachorra Otsu?), sobre os poderes mágicos de uma poção que estava deixando ele bem forte... Pode parecer bobagem, mas acho que isso seria difícil de acontecer na época da televisão, pois o Yuri não brincava sozinho! Se não tinha alguém para brincar, ele assistia TV... se a gente "mandava" ele brincar, ele solicitava a nossa presença o tempo todo... se não tinha TV, ficava entediado... E, com apenas três meses sem a televisão, isso mudou completamente...


Agora, a maior parte do tempo, Yuri e Luana inventam brincadeiras juntos ou sozinhos. Brincadeiras mesmo, de faz-de-conta, de jogos de tabuleiro, de pintura ou de música.

Luana tem se esbaldado em suas explorações. Ela adora aventurar-se em seu guarda-roupa atrás de um sapato, de uma roupa ou de um brinquedo... e isso significa, frequentemente, tirar tudo o que tem dentro do armário... E quando a gente chega para ver o que está acontecendo, ela na maior felicidade diz: "olha o que eu achei!". Outra coisa que a atrai bastante é água ou tinta, então, se ela estiver em silêncio por algum tempo e ela não estiver no guarda-roupa, podemos procurá-la pelo banheiro ou perto das tintas. No banheiro, ela costuma dar banho de pia em algum brinquedo ou ver a pasta de dente ou o creme de cabelo escorrer pelo buraco da pia... sim, sim, ela aperta e deixa escorrer... (E é nesses horas que tenho vontade de "apertar seu pescocinho", quem leu o post sobre punição, sabe do que estou falando, quem não leu, pode ler por aqui.). Com as tintas é meio imprevisível a tela que ela pode escolher para pintar, às vezes um papel, outras, uma parede, e outras ainda, o seu próprio corpo como experimento. Fico admirada com sua criatividade e capacidade de explorar diferentes possibilidades de usar uma tinta...


Nossa rotina mudou? Muito! Mas como disse, nos acostumamos muito naturalmente com o dia-a-dia sem a TV e vemos o quanto isso fez diferença na criatividade das crianças... Imagino algumas pessoas comentando a bagunça que a nossa casa se transformou. Na verdade, desligar a TV foi um pontapé na nossa transformação... mudamos não só a televisão de lugar, como mudamos também nossos princípios, nossas prioridades e nossa concepção de bagunça... No meu entendimento, nossa casa ficou mais viva, mais colorida e mais livre... E eu e meu marido tentamos todo dia, a toda hora, nos tornarmos pais menos autoritários e menos donos de tudo. Nossos filhos conquistaram mais autonomia e controle sobre os espaços (e isso é um aprendizado diário, às vezes difícil de ser compreendido por nós, adultos). É muito mais fácil não deixar a filha jogar as roupas todas sobre a cama para escolher a que mais lhe agrada naquele momento, é muito mais fácil colocar a roupinha mais bonitinha e que mais combina com o gosto da mãe do que ver sua filha usar o mesmo vestidinho vermelho e branco dias a fio, é muito mais fácil nem abrir o guarda-roupa e nem deixar sua filha entrar no próprio quarto... mas tudo isso, apesar de mais fácil também é muito mais autoritário, impositor, triste e desestimulante. Autonomia se aprende na prática diária. Acredito que, ao deixar minha filha mexer em seu guarda-roupa, estou de certa maneira, ensinando-a que ela tem capacidade e liberdade de escolha e que escolhas têm consequências... nesse caso, ter que arrumar a bagunça depois (com nossa ajuda) e ter que esperar pelo menos três dias para usar o vestido de novo, pois ele suja, precisa lavar, secar e passar (kkkkkkkk).

Enfim, o que queria dizer é que, ao desligar a televisão visando dentre outras coisa, diminuir a exposição dos nossos filhos (e nossa) à cruel fábrica de consumismo, acabamos descobrindo um mundo novo, mais alegre, mais bonito, mais bagunçado e muito mais real. Literalmente, aqui estamos todos colocando mais a mão na massa, seja em massinhas de modelar, seja em tintas, seja fazendo pães, coxinhas, saladas de frutas, dentre outras coisas gostosas, porque sem televisão sobra tempo para outros experimentos.





quinta-feira, 31 de outubro de 2013

"Mas eu sou obrigado a aprender isso?"

Tenho lido muita coisa sobre educação atualmente (mais até do que eu sempre li, pois me interesso demais por esse assunto). Gostaria de compartilhar com vocês uma das últimas coisas que li e que trata de um assunto muito interessante: podemos ou devemos obrigar alguém a aprender algo? Não é um tema diretamente ligado à TV, embora esteja relacionado ao contexto geral, que tem a ver com as escolhas que fazemos do que fazer com nosso tempo, as escolhas das atividades e fontes de aprendizado para nós e nossos filhos etc. Posto aqui um artigo da educadora Cathrine Gobron, diretora da North Star, que acabei de traduzir. Se você quiser ler o original, clique aqui.

Galinhas e ruas: por que a instrução compulsória é desnecessária

Catherine Gobron – Diretora da North Star: Aprendizagem auto-dirigida para adolescentes


Eu trabalho num programa educacional para adolescentes no qual os estudantes têm total controle sobre seu próprio horário e não têm nenhuma exigência acadêmica. Somos muito questionados sobre como isso poderia funcionar. Uma pergunta frequente é: “Como as crianças vão aprender a fazer coisas de que elas não gostam se elas não são obrigadas a fazê-las?”
Você deveria pensar que a educação formal deveria buscar algo um pouco mais elevado do que ensinar as crianças a suportar as obrigações. Mas a pergunta surge o tempo todo.
Aqui está a minha resposta:
Tarefas desagradáveis são abundantes. A vida é absolutamente repleta de coisas que preferimos não fazer.  Lavar roupa, lavar louça, passear com o cachorro, aspirar o carro, aparar a grama, escrever bilhetes de agradecimento para a sua avó, trocar o óleo do carro, negociar com a companhia de seguros... Há uma lista infinita de coisas que fazemos apesar de não querermos fazer. De vez em quando, adiamos uma ou outra dessas necessidades, e sofremos as consequências, seja viver temporariamente com a louça suja ou ter o carro apreendido por não ter pagado as multas. Não precisamos praticar fazer coisas de que não gostamos, e não precisamos praticar sofrer as consequências. A vida está cheia das duas coisas. Elas dificilmente podem ser evitadas.
Além disso, em minha experiência não vejo nenhuma diferença entre aqueles que foram à escolar e aqueles que não foram no que diz respeito à habilidade de realizar atividades desagradáveis. Anos de lições monótonas e exercícios insípidos não parecem aumentar a probabilidade de alguém manter os dentes limpos regularmente, por exemplo. Anos de tarefas obrigatórias e rotineiras podem aumentar a resignação de uma pessoa a uma insossa vida profissional adulta, mas essa é uma meta digna para a educação?
Por que a galinha atravessou a rua? (Para chegar do outro lado, claro.) Por que fazemos qualquer coisa? Simplesmente para fazer, ou porque há algo do outro lado que pensamos valer a pena ter ou conhecer ou experimentar. Ninguém precisa fazer pessoas (ou galinhas) atravessarem a rua. Você pode ajudar alguém a alcançar sua meta olhando um mapa com ele ou ajudando-o a pensar em seus planos. Não há necessidade de fazê-lo atravessar nenhuma rua em especial, metaforicamente ou não. Na verdade, tentar fazer isso é uma boa maneira de evitar que uma pessoa deseje atravessar ou que obtenha algo na jornada.
Obrigar as pessoas a fazerem coisas que não gostam as encoraja a não gostar daquilo a que estão sendo obrigadas, ainda que essa coisa seja divertida ou valiosa. Se uma pessoa encontra uma rua que vale a pena atravessar, ela irá atravessar. Os ajudantes em sua vida podem ser úteis acreditando que ela pode fazer isso e que irá fazer, e dizendo isso a ela. Outras maneiras úteis de ajudar se tornarão evidentes por meio da interação e da discussão.
Como os jovens irão aprender a fazer coisas de que não gostam? Estabelecendo suas próprias metas e tendo confiança para trabalhar por elas. Não há necessidade de procurar ou criar desafios ou obstáculos desagradáveis. Eles vão encontrá-lo. A pessoa que é motivada por seus próprios desejos e ideais irá trabalhar em meio e ao redor dos obstáculos. A prática consiste em fazer.
Todos os dias em meu local de trabalho eu vejo adolescentes ignorarem jogos e diversão em seu caminho para a aula. Por que os adolescentes iriam para a aula quando eles podem brincar lá fora ou fazer outra coisa mais legal? Porque eles querem. Não há necessidade de obrigá-los. As crianças que não estão na aula estão fazendo outras coisas importantes, que poderiam ser qualquer coisa, desde fazer amigos até juntar coragem para encarar consequências.
Aprendizagem não-compulsória se beneficia de reflexão, abertura, apoio e discussão. Obrigar é desnecessário, e mesmo contraprodutivo, para o aprendizado.
Quando pensamos em nossa própria vida adulta, esses argumentos são óbvios. Nós fazemos coisas que somos motivados a fazer e nos sobressaímos nas coisas de que gostamos. Crianças também.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sobre punição

Eu achava que estava me controlando ao não punir fisicamente meus filhos por comportamentos inadequados (tento o máximo possível não encostar a mão de forma agressiva neles)... Sou contra a violência, qualquer que seja a sua forma de expressão. Já estudei bastante sobre o assunto e tenho mestrado e especialização nessa área de violência contra crianças e adolescentes.

Porém, a vida com nossos filhos nos ensina diariamente a repensar e a rever nossas atitudes. Dias atrás, li um texto que mexeu muito com minhas convicções: 

“(...) é bom ficar claro, que a punição, em qualquer circunstância e sob qualquer forma traz consequências ruins para a criança. A punição, seja batendo, seja colocando de castigo, seja através da fala ou mesmo de um olhar ensina para a criança que nosso amor por ela é condicionado. Ou seja, só a amamos quando ela se comporta da forma que nós achamos certo” 
(trecho do texto: "Há Tempos que Eu não Via um Pai bater em um Filho! do blog “Filhas e filhos” e que vale muito ser lido na íntegra)

Ao ler, me senti culpada e revi minhas atitudes. Nesse texto, o castigo ou o olhar de reprovação são colocados no mesmo balaio da punição física... Me pergunto: Será?

Quando leio um texto desse tipo me lembro que constantemente perco a paciência com meus filhos por motivos banais... principalmente quando eles não atendem a um pedido meu no momento exato que o faço. Se peço uma coisa mais de três vezes, minha reação "normal" é falar mais alto e até gritar para ser escutada... Também uso de chantagens, tipo, se não fizer isso não vai poder fazer aquilo... e coisa e tal. Falo isso com vergonha e aperto no peito, pois teoricamente sei que esse tipo de artifícios não ensinam nenhuma criança a se auto-gerir, apenas a condiciona a fazer aquilo que esperamos dela... E muitas vezes fazemos isso com a "melhor" das intenções, com a desculpa de que precisamos educá-las e colocar limites. Mas a questão é: o que nos tira do sério? Realmente agimos para educá-las ou agimos apenas para satisfazer nossos desejos? Os limites e punições realmente dizem respeito a comportamentos inapropriados das crianças ou somos nós que não conseguimos escutar e respeitar o tempo e momento de nossos filhos?

Em consonância com essas minhas questões, segue um outro texto provocador: "Seu filho te tira do sério? Isso é sério!". Um texto que volta o descontrole para nós, adultos, e que nos devolve as nossas frustrações e os nossos problemas.

Como disse, sempre fui contra a violência, seja ela física, sexual, psicológica ou por negligência. Aqui em casa nunca consideramos bater como uma opção de método de educação. Somos contra tapas, puxões de orelha, "coques"... não acreditamos que isso ensine bons comportamentos. Acreditamos que quando batemos estamos ensinando aos nossos filhos que esse é um meio de resolver conflitos e que é usado por alguém mais forte sobre um mais fraco... Ensinamos ele a bater... Confesso que na hora da raiva sinto vontade de "esganar a criatura", que quando eles ferem meu orgulho de boa mãe ou não me obedecem tenho vontade de segurá-los à força e obrigá-los a agirem como eu gostaria. Mas, confesso ainda coisa pior e inaceitável, que é o fato de mesmo sendo contra a violência, pessoalmente e profissionalmente, já dei uns tapinhas nas mãozinhas deles (quando digo tapinhas não estou tentando amenizar a violência do ato não, pois a intenção é a mesma de um tapa mais forte) por total falta de controle meu. Devo ter batido umas duas vezes em cada um, ao longo de seus 6 e 3 anos. E me sinto péssima ao reconhecer que fiz isso simplesmente por falta de controle e sempre relacionado a alguma coisa que eles fizeram e me machucaram fisicamente. Confesso minha culpa e não tentarei justificar o ato. Ao confessar pretendo mostrar que também cometo falhas e que não pretendo ser modelo de boa mãe. Mas que estou disposta a repensar e melhorar sempre... E dessa vez, revendo mais ainda outros atos além da questão física, repensando minhas "chantagens" e castigos (que felizmente diminuímos quase a zero por aqui depois que desligamos a TV... que engraçado, ainda não tinha feito essa relação, mas é muito verdadeira, depois que desligamos a TV, pararam-se os castigos... acho que isso dá um outro post! , quem sabe o Luis Gustavo não faz essa reflexão pra nós, hein amor?!)

Seguem aí mais dois outros textos muito bons sobre o tema e que não posso deixar de compartilhar: o primeiro: "Castigo para pensar nem pensar!", questiona a eficácia do castigo utilizado como uma forma da criança pensar sobre o que fez e o segundo: "Seu filho é normal como você", é uma bela lição e reflexão sobre os comportamentos "inadequados" de nossos filhos a partir de uma analogia com as nossas próprias reações frente coisas que nos incomodam... Leiam, por favor!

Para terminar, queria compartilhar uma frase que acompanha a minha relação com o meu filho mais velho, o Yuri. Não sei exatamente quando começamos a nos comunicar assim mas já tem mais de três anos com certeza, e sinto que isso foi muito significativo para ele, sendo que, vira e mexe, ele me investiga para saber se ainda continuamos assim.. e que é basicamente separar a raiva do amor e sempre reforçar o amor... Quando ele faz algo que não devia e eu chamo a atenção e fico nervosa a gente lembra da frase, que é a seguinte: "Eu te amo sempre, não gosto disso que você fez, mas eu  continuo te amando". Então em dias que eu nem lembro ele vira e me lembra, "mamãe você me ama mesmo quando eu faço bagunça, né?". Acho que é isso.

Até a próxima inquietação!

E para quem ficou curioso, pode acessar minha dissertação de mestrado  por aqui

domingo, 29 de setembro de 2013

Sobre o sagrado

Mais um domingo. Mais aprendizado. Mais desafios.
Vou pedir licença para escrever sobre mim mesma e meus sentimentos. Pode fugir um  pouco da proposta inicial do blog: descrever as mudanças aqui em casa depois que desligamos a TV. Mas talvez só pareça que fuja, porque desligar a TV está relacionado com uma busca por mais coerência e qualidade de vida e também porque meus processos se misturam com os deles e vice-versa. E ainda porque especificamente esses sentimentos de hoje estão diretamente relacionados com um movimento meu de buscar atividades para nós que estejam em sintonia com o que acreditamos. A desse final de semana foi um presente!
Eis-me aí!

Hoje trombei comigo mesma de mais de quinze anos atrás. Foi um presente.  Mais intenso do que sou capaz de compreender... Reconectar-me a mim mesma, resgatar pedaços e revivê-los com o que sou hoje... E a cada dia eu fico mais grata pelas experiências vividas (e agora revividas) durante a minha adolescência.

 Palavras que utilizo hoje, para compreender e explicar as coisas que acredito, foram cravadas na minha pele ainda jovem: protagonismo, educação para a paz, solidariedade, educação de pares, respeito, diversidade, desescolarização?!?

Hoje tropecei em mim mesma, um pouco esquecida. Eu, Gaia, ancestral, “o outro de você”. Eu, terra, fogo, água e ar. Que invoca deusas e deuses e canta em outras línguas.

Hoje, ao ver meus filhos ao redor de uma fogueira construída por eles, ao som de tambores, eu me emocionei e reverenciei a vida, minha e deles. E eles dançaram, cantaram, dispersaram seus medos.

Eu voltei no tempo, voltei para as minhas danças ao redor de fogueiras, ao meu sentimento de fazer parte de algo maior, de me sentir protegida, de me sentir parte de um TODO. E reencontrei alguns mestres (Kaka Werá, Ricardo, Sônia...).

Hoje, sem me preparar, eu voltei para um círculo, para uma roda em torno do fogo, para as danças sagradas. E me senti bem.


Hoje sei que não estou começando nenhum processo novo. Novos desafios, sim.