quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Uma História

Star Trail realizada por Kirihara na Chapada dos Veadeiros, em Goiás

Star Trail realizada por Kirihara na Chapada dos Veadeiros, em Goiás


Enquanto a gente atravessava a dor, o medo e a cidade, em pleno rush de meio da tarde de uma terça-feira nublada, entre uma contração e outra, na quase chegada de seu filho ao mundo, ela me pediu:

“Alê, conta uma História”


Eis aqui um pequeno trecho dessa longa História de Amor Encantado que tive a honra de testemunhar: 


A Chegada de Noa


Foram muitos dias de expectativas antes do início do trabalho de parto.

Muitas bençãos, muitos rituais e festas enquanto Noa nadava tranquilamente em suas águas vitais, se banhando e se beneficiando do aconchego uterino. 

Na última sexta-feira, em uma festa, um conhecido Bruxo Dançarino deparou com essa gestante que lhe contou que seu filho poderia nascer a qualquer momento. Mas ele, com sua sabedoria despretensiosa, alegremente discordou informando que ainda não era a hora certa. Ela ainda insistiu na proximidade do parto e o Bruxo-dançarino, de forma marota, como quem brinca com o controle do tempo, lhe anunciou: “Relaxa, não será hoje, será terça-feira”. E desapareceu entre poemas e músicas. A profecia estava posta. 

Como premeditado, exatos três dias depois, na madrugada de terça-feira, apareceram os primeiros sinais. 


E, como em toda boa aventura, haja fôlego! 


Muitas águas ainda rolariam... chuva, fontezinha, bolsa estourando, chá, chuveiro, lágrimas... até porque... 


Não foi só um Parto 

Foi o reencontro com o Sagrado 

Com a Fé

E com o que há de mais visceral e Humano em nós


Não foi somente um Parto

Foi uma “Odisseia”

Com intensidade, desafios e superações 


Não foi apenas um Parto

Foi curtir a paisagem do próprio Quintal

Construída com as próprias mãos

Entre uma contração e outra


Foi colher coco do pé para beber a sua água

Sentados ao redor da Fonte

Enquanto peixinhos dourados, azuis e vermelhos

nadavam em sincronia com a força Divina

e a gente se reabastecia de Paz e Força 

para continuar a Jornada


Não foi só mais um momento de Parto

Foi enfrentar dragões e outras feras

Chegar quase na exaustão

E, cansados, dançar alegremente com o Universo 

Num pequeno quarto de Hospital

Uma festa de estrelas e vagalumes


Não foi simplesmente um Parto

Foi rearranjar toda estrutura interna

Quebrar qualquer controle

Ficar de ponta cabeça 

Muitos chacoalhões

Aceitar os mistérios do Universo 

E confiar na Ciência


Foi sentir Deus pelas mãos da Médica


E, por tudo isso e muito mais,

Não foi só terminar em uma cesariana

Foram muitos partos vivenciados

Até que Noa chegasse

 Pleno, Forte e Vitorioso 

Nos braços de seus Protetores


E essa é só uma das várias versões que eu poderia contar sobre essa maravilhosa chegada ao nosso mundo. 


Guardarei no coração as várias vezes que ouvi minha amiga cantar meu nome durante todo esse dia: “Alê, Alê, Alê....” e assim reafirmar minha gratidão por poder estar ao seu lado, nesse momento tão grandioso. 


Bem-vindo Noa! 

Bem-vindo Pequeno Ser de LUZ!

Seu pai é um Guerreiro! 

Sua mãe é uma Deusa!




Alessandra Araújo (17/12/2025), após um PARTO depois de um longo período sem doular 



sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Borboeta-Mãe


Cena: caminhada em família no final da tarde. 

Yuri olha para minha tatuagem nas costas:

- Mãe, não sei porquê,  mas toda vez que eu olho para sua tatuagem parece que a borboleta tá diminuindo...

E continua:

_ Quando eu era pequeno parecia que ela ocupava suas costas inteira. Agora fica cada vez menor.


... Esses símbolos do adolescer

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Família Bicho

 O Gato, o Cachorro, a Raposa e a Jaguatirica são os bichos que mais bem descrevem cada um da minha família. O Gato, quase sempre parecedo indiferente, mas mesmo assim tá sempre ali quando você precisa. O Cachorro, é claro, é o mais amoroso dos quatro, é aberto e afetivo do melhor jeito possível, mesmo brigando com o Gato regularmente. É visível que os dois ainda se amam bastante (você tem que ver os dois aconchegados no sofá). A jaguatirica, pode não ser tão ligada igual quando era menor, mas mesmo assim é de longe a mais energética dos quatro. E por fim, a Raposa, escondida no cantinho dela, tentando ser quieta mas cutucando a Jaguatirica com vara curta sempre que dá, sentindo falta de dar abraços a pessoas de fora mas tendo vergonha de abraçar as de dentro, mas amando os outros três incondicionalmente, mesmo não mostrando tanto assim.

(Texto do Yuri, escrito para uma atividade da escola, outubro 2021)

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Ana Lua

 



A vida muda

Todo dia


A Terra gira 

Nos revira


Nos convida a mudar

Constantemente


Fases, ciclos, ritmos

É hora de transformar!


Crescer é belo

Crescer é necessário 

Crescer é viver 

Você sempre será nossa Menina

E estamos felizes de transformar, crescer e descobrir novas possibilidades felizes com você 


Rito "real" - 02/10/2021

Rito "simbólico" - 12/10/2021 

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

O dia em que eu consegui mudar o Mundo


Como será que anda a minha maternagem? Nossa escolha familiar ainda continua sendo por toda restrição social "desnecessária". Sendo assim, nada de encontros sociais, amigos, passeios, etc. Aulas só online!!!

Yuri foi selecionado pela escola de programação para participar pelo terceiro ano consecutivo da Olimpíada Brasileira de Informática. A primeira fase, municipal, foi online e ele passou para a fase Estadual.

Daí, dois dias atrás, a escola nos informou que a prova que será realizada amanhã, teria que ser realizada obrigatoriamente na escola, sem outra opção. Assim, entramos no dilema de tentar decidir se o Yuri participaria, considerando o contexto e  nossas escolhas de cuidado e o desejo de participar. Tudo nos levava a optar pela desistência de sua participação.

Então, ontem, inconformada pela falta de opção, decidi procurar as regras da Olimpiada. Entrei no site oficial da Unicamp e, adivinha? No site havia uma nota em que a organização, apesar de inicialmente ter tentado fazer tudo no modelo presencial, voltava atrás (devido às altas taxas de covid) e permitia a realização das provas também em casa, deixando a critério de cada escola decidir como realizaria. Escrevi na hora para a escola do Yuri, com o link da Olimpíada e pedindo que reconsiderassem a participação dele sem ser presencial. E agora a tarde veio a resposta, permitindo assim que todos que desejem fazer de casa, possam participar. 

Ao ler a resposta fui tomada pela emoção. Não somente pelo fato de ele poder realizar a prova... porque ele ja estava conformado em não participar e tal... a emoção foi muito além. 

Uma emoção de MÃE!!! 

Emoção de mãe que pôde ensinar ao filho a possibilidade de não aceitar qualquer informação, regra, imposição sem fundamento e... poder questionar, tentar entender, ir atrás de mais fontes, de mais explicações quando incomodado... e... ao encontrar fundamentos ou informações, usá-las para embasar e transformar a situação...

Amanhã ele fará a prova, aqui de casa, e esse é o melhor prêmio para mim.

Emoção de mãe que  mostra ao filho que é possível mudar o Mundo.






sexta-feira, 28 de maio de 2021

A Grade


Em menos de uma semana você vai completar 11 anos. Minha filha caçula. O corpo já denuncia que você já não é mais tão criança, embora a possibilidade de crescer e se transformar ainda lhe cause resistência e estranhamento...

e eu achando que a resistência era só sua... Essa semana vivemos algo não planejado mas que agora me pareceu bem simbólico... Sua cama tinha uma grade. Daquelas para crianças pequenas não caírem. Colocamos quando arranjamos uma cama nova. Antes você dormiu quase um ano no colchão no chão (muitas vezes rolava e acordava fora dele) e, antes, dormia em uma cama-carruagem que tinha "beiradas"... Você sempre se mexeu muito dormindo e tem o sono pesado. Já caiu da cama mais de uma vez em viagens. Enfim, para mim, a grade te protegia. Final do ano passado, você começou a pedir para que tirássemos a grade. Seu pai totalmente de acordo. Mas eu resisti. Com medo de vc se machucar. "Do chão não passa", seu pai sempre alegava. Eu apelava para a pandemia e convecia vocês dois de que não era hora de machucar e nem correr o risco de precisar de um hospital. Foram vários pedidos e eu convicta de que ainda não era a hora...

Há dois dias você novamente me pediu para não colocar a grade na hora de deitar.... e repentinamente... meu coração aceitou.... sem aquele medo e preocupação (claro que coloquei o pufe do lado por garantia... mas foi só). Demorei um tempo para ter tranquilidade para aceitar que a grade não era mais necessária. Você foi paciente comigo embora persistente e insistente na sua forma de me mostrar que cresceu. Minha menininha cresceu. Feliz crescimento e transformação!!! Que a gente possa juntas lidar com nossos medos e que tenhamos coragem de tirar as grades já não são mais tão necessárias.
Um beijo de sua mãe orgulhosa

                                                                                                    
                                                                                                                 (texto de 28/05/2021)







 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Rito de passagem

Hoje, no começo da tarde, enquanto nós quatro cumpríamos a nossa tarefa semanal de toda sexta-feira desde início da pandemia (lavar a área externa de nossa casa), aconteceram dois fenômenos com Yuri (13 anos).

Fenômeno 1 (lado infantil): Yuri começa a dançar e brincar enquanto ensaboava o chão e de repente leva um baita tombo. Além do orgulho, bate o queixo no chão e a perna, mas sem cortes ou sangue. O pai arruma uma bolsa de gelo e ele coloca no queixo.

Fenômeno 2 (lado adulto): Enquanto segura a bolsa de gelo, Yuri vira para o pai e pergunta, assim como quem pede para passar o sal na hora do almoço: "Como faz para tirar meu bigode?" O tal bigode que apareceu em meados do ano passado e ainda é uma penugem. O pai tranquilamente diz que vai lhe mostrar. Meu coração acelera em um misto de orgulho, susto, emoção. 

E, no meio da tarde, vejo ele e o pai no banheiro. O pai lhe apresentando os instrumentos, Yuri atento e tranquilo. 

Eu me lembrando de uma cena de uns 10 anos atrás, ambos no banheiro, Yuri brincando de imitar o pai, com uma tatuagem de mentira igualzinha a dele.

Foi assim, no meio de uma tarde nublada, última sexta-feira das férias dele antes do retorno às aulas (ainda online), que ele atravessou um dos portais para a vida adulta. Sob a orientação assertiva do pai e a emoção e curiosidade da mãe - que se policiou bastante para não invadir (muito) um espaço sagrado masculino. 

Felizes novas descobertas e transformações para meu filho adolescente! Que seu pai seja sempre seu reflexo de masculino presente, aberto, cuidadoso e ético. 










quarta-feira, 13 de maio de 2020

Pedaço de Universo



Ainda há tempo... porque a maternidade é uma ação e atitude diária e ininterrupta que nos consome e nos embala a todo momento... eis o maior presente dessa semana... feito espontâneamente por minha filha para mim em um dia qualquer da semana que passou... "um pedaço do Universo"... é isso que ser mãe significa para mim... ter a honra de gerar, criar e acompanhar pedaços de Universos. Grata meus filhos por me ofertarem essa experiência.

(Texto de 13/05/2019)

sábado, 9 de maio de 2020

Café de Mãe



Cena 1 - Ela tomava café preto todos os dias. Eu não entendia o porquê dela beber algo tão forte.

Eu era pequenina
Ela quase não ficava em casa
Precisava salvar o Mundo
Minha mãe tem uma identidade secreta
Ela é uma super-heroína

Eu me lembro de acordar
Com um copo de chocolate quente
Feito e entregue amorosamente por ela
Café da manhã na cama
Todos os dias

E me lembro dela penteando meu cabelo
E dizendo que ele era lindo
Assim todo cacheado e solto
Eu reclamava, ela elogiava
E desembaraçava, prendia, trançava

Cena 2 - Ela tomava café preto todos os dias. Eu começava a achar o cheiro bom e a me interessar pelo ritual.

Eu já não era tão pequenina
Ela nunca parava e relaxava
Eu comecei a me interessar por esse Mundo
Que ela salvava todos os dias
Ela me ensinou como olhar além

Eu me lembro dela vigiar de longe
Com quem eu andava, aonde queria ir
E me acolher nas primeiras dores de amores
Eu já entendia seu cansaço
E ria dela dormir vendo filme na sala

Ela comprava as minhas roupas
Eu crescia e já era maior do que ela
Muito mais curvas e volumes
No seu espelho, eu sempre fui Linda
Ela me ensinou a me amar

Cena 3 - Ela precisou diminuir o café preto de todos os dias. Eu não vivo sem café.

Eu não sou nada pequenina
Ela continua salvando o Mundo
Às vezes nos encontramos nas aventuras
Mas ainda preciso de sua ajuda
É ela quem me salva de algumas enrascadas

Ela me liga todo dia
E apesar de quase não parar em casa
(a não ser agora na quarentena)
É e sempre foi meu porto seguro
estando sempre presente e constante

Ela é mãe coruja de três e avó de seis
Isso requer dividir sua atenção e colo a todo instante
Mas temos um ritual que é só nosso
Meu e dela (e da minha avó, agora só em coração)
O nosso momento do café. Juntas.



terça-feira, 28 de abril de 2020

Um brinco e o rumo da História


Seria uma simples foto
Não fosse tudo que é.


Essa foto. Esse dia. Esse brinco.

Eu ainda não sabia.
Mas os rumos de minha vida estavam, ali, mudando de direção.
Por outro lado,
Eu e muita gente sabíamos.
Que os rumos políticos do Brasil estavam, ali, mudando de direção.
Só não sabia, e nem conseguia imaginar
o quanto ainda poderia piorar.

Era um brinco.
Mas era muito mais.
Era desejo, vontade, engajamento, história e escolha.
Eu escolhi, desde muito pequena, um lado da história.
Sempre soube que existem várias versões e pontos de vista.
Me identifico mais com lado mais marginalizado, com a consciência de ser privilegiada
Meus "méritos" nunca foram só meus
Vieram com manchas de sangue, fome e violência de outrem.
Isso me sensibiliza e me faz lutar
Por um Mundo diferente.

Estar ali, com aquele brinco, foi uma escolha.

Eu, de brinco.
E tiraram uma foto.
De mim. Do brinco.
Espalharam a foto.
E dizem que foi aí que tudo começou.
Brincadeira! Ela é perigosa! Olhem o brinco!
Me afastaram do meu trabalho.
Com força. Com raiva. Com assédio.
Era só um brinco.
Mas era muito mais.

Eu, de brinco.
Desde pequena.
Em casa. Com amigos. No trabalho.
Brinco de me arriscar a ser o que acredito.
Não me arrependo.
Conseguiram me abalar, me fragilizar, me chacoalhar.
Ainda sofro com a perseguição política.
Eu, resisto.

E, olhando essa foto hoje, depois de tudo, ainda me orgulho, do brinco.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Coração de Mãe ou Voa Passarinhos

"São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração"

E veio a força de março
e vieram os vendavais da vida 
"tudo novo de novo"

A gente reformou nossa casa ano passado
Ficamos 11 meses fora dela
Foi uma reforma grande, externa e INTERNA
Final do ano passado, voltamos para a "nova" casa
e já não era mais a mesma
e já não éramos os mesmo
Voltamos outros para dentro do ninho
Nos aconchegamos em novas camas
e olhamos por novas janelas
mais abertas e arejadas
Nos re-conhecemos

Nesse processo de readaptação
estou me redescobrindo MÃE
e descobrindo o adolescer dos meus filhos
Eles estão enormes
Não sei mais tudo que eles sentem e pensam
Eles já conhecem tantos Universos
Eles já se viram tanto para quase tudo

Passadas as tranquilas férias em família
Um furacão interno me tirou o chão
Uma angústia. Uma necessidade de mudar o rumo
Joguei a bomba para o Gu: Quero voltar os meninos para a Escola Tradicional
Achei que a bomba ia nos estilhaçar
Achei que ele nunca ia me perdoar
Achei que ele me ignoraria
E o que ele fez???
Ele me deu a mão
Ele me disse: Vamos lá!
Ele me tranquilizou: vai dar tudo certo

Uma grande decisão
Muitas reflexões e partilhas entre nós dois
Muitas lembranças e conexões
A gente sonhou junto um novo lugar
Ele construiu esse sonho e eu acreditei e continuo acreditando
Ele, o alicerce e a força da ação
Eu, a fluidez e a força de criação
Vivemos isso seis anos atrás 
vivemos isso nesse período da reforma
E estamos vivendo agora, nesse novo caminhar
Um retorno? 
Penso que não
Um novo começo
Mais uma aventura
E uma história incrível e única na bagagem


Hoje é O PRIMEIRO DIA de uma nova etapa de vida
Hoje está sendo o primeiro dia de aula dos meus filhos
E hoje, coincidentemente e sem eu prever, será meu primeiro dia de trabalho (fui informada ontem dessa mudança e para um local que eu nunca imaginei!)
Tudo hoje!!!
Novas promessas de Vida em nossos corações


PS:
1 - Ontem Luana foi dormir ansiosa e preocupada: "Mamãe, e se ninguém gostar de mim? E se a professora não for legal?"
Assim que chegamos na escola da Luana e a recepcionista pedia para uma funcionária nos encaminhar até a sala, um menino que bebia água já veio falando: "Ah! A sala da tia Cláudia? pode deixar que eu levo ela,  eu estudo lá" , e foi logo complementando "Pode deixar que a tia Cláudia faz tudo ficar legal, ela é o máximo!"
E eu ainda na dúvida, se era mesmo um menininho... ou um anjo que o Universo colocou ali para receber a minha filha nesse novo desafio.1
De todo jeito, grata menininho. Você não sabe como deixou esse coração de mãe mais aliviado.
2- Sou muito grata aos caminhos de amizades que a humanização do parto me deu de presente. Todo esse intenso e desafiador processo só está acontecendo assim, de forma tão "suave" (kkkkkkkkk)  porque eu encontrei uma amiga, no lugar certo, na hora certa. E está sendo o coração dela que está acalentando as minhas angústias e trazendo a amorosidade para eu confiar no processo. Grata Carol, eternamente. Sua mensagem hoje cedinho, antes de eu sair de casa, sem eu pedir, me dando apoio, me contando que os meninos seriam bem recebidos e nos desejando "bons novos começos" foi um grande abraço na minha alma. 












sábado, 18 de janeiro de 2020

Suspiro


A Vida hoje se fez PRESENTE com toda intensidade Manhã ensolarada Tarde com tempestade Noite mágica, estrelada e misteriosa A Vida hoje foi um PRESENTE Como um doce suspiro Nos ensinando que vale a pena saborear Cada instante do Agora Hoje Elis passou por dois Portais Elis chegou e trouxe consigo a PAZ Tão amorosamente cultivada por sua mãe e seu pai durante toda a gestação Já era esperado que o encontro fosse breve E assim foi Elis nasceu Naturalmente parida por sua mãe Com todo apoio e amparo Sem intervenções desnecessárias E uma equipe que a amava desde o ventre Elis nasceu E o Mundo parou para olha-la Tão bela Branca, serena, suave e rechonchuda Uma boneca cheia de dobrinhas de gostosura Elis nasceu.... e logo partiu Uma breve passagem Para sentir e curtir o colo de sua mãe Despediu-se alguns suspiros depois de chegar Embalada por seus pais No quarto em que nasceu À meia luz, música suave e reverência da equipe Um presente essa menina suspiro que transformou tanta gente Elis tambem foi apresentada e acolhida pelos irmãos e avós Todos puderam conhecê-la e abraça-la A partida, como o parto, foi natural, familiar e respeitosa E é assim que a família escolheu viver e contar a história da chegada e partida da Elis Com muito amor, naturalidade E respeito pelos mistérios do Universo Bem-vinda e até logo Elis Alessandra Araújo 16/01/2020

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

A fuga e a volta do filho

Quando meu filho tinha 1 ano e meio de idade, ele "fugiu" de casa. Meu marido esqueceu o portão aberto. E quando fui procura-lo, ele não estava dentro de casa. Ainda sinto medo e desespero quando lembro de quando vi o portão aberto. De duas uma: ele foi raptado ou atropelado. P â n i c o. Assim que saímos de casa, avistamos ele conversando com uma senhora vizinha, três casas abaixo da nossa. Não a conhecíamos, mas ela sabiamente "segurou" aquele bebê serelepe e comunicativo com ela até que alguém aparecesse. Salve Dona Valkiria.


11 anos depois. Ontem. Fui levar esse mesmo menino para sua aula de computação.
Deixei ele na esquina da escola, como de costume. E combinei de buscá-lo dali uma hora e meia.
Voltei para casa. E 20 minutos depois o interfone tocou insistentemente. Ao abrir, me deparei com ele. Meu filho. Como assim!!?? E na hora me lembrei que hoje não tinha aula. Feriado. E eu tinha me esquecido totalmente do recado que recebi da escola pelo Whatsapp. Ele ainda não tem celular.
Escola fechada. E o que ele fez? Voltou a pé e sozinho para casa.
Ainda estou lidando com a culpa de ter esquecido que não tinha aula e com o fato dele ter tido que lidar com a situação sem preparação e apoio.
Mas que emoção e quanto orgulho dele. Ele cresceu. Está caminhando para sua independência. E sabe voltar para a casa. Sozinho.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A Doula e a Equipe




A doula é aquela que vai estar ali, bem perto da mulher (se ela assim desejar), quase como uma extensão do seu próprio corpo, lhe amparando, lhe dando suporte, cuidando do entorno bem de perto.

A boa equipe é aquela que está ali, por perto, observando, acompanhando, avaliando de tempo em tempo, mas quase imperceptível no ambiente (a não ser que a mulher solicite). E a segurança vem desse acompanhamento não invasivo mas presente.

A doula complementa e auxilia o trabalho da equipe. A equipe garante a segurança e o acompanhamento do parto para que a doula possa ter a tranquilidade para oferecer o seu suporte. 

Com a doula, a equipe pode focar no trabalho técnico e sair de cena. Geralmente, em partos sem doula, a equipe fica sobrecarregada por uma demanda da mulher de suporte afetivo e presença constante.

Nem a doula, nem a equipe, substituem o papel afetivo d@ acompanhante.

(Foto de Kelly Mamede, gentilmente autorizada por Mariene Perobelli)

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Entranhas do Parto

Parir é verbo concreto
Feito de corpo, carne e sangue
Parir é presente e presença
Feito de espera, tempo e ritmo
Parir é estiramento
Feito de nervos, ligamentos, ossos
Parir é um escancarar-se
Feito de sons, intimidade, alma
Parir é êxtase
Feito de força, exaustão e gozo
Parir é lambuzar-se
Feito de secreções, lágrimas, vernix
Parir é poesia concreta
Feito de corpo, carne e sangue




Alma do Parto









Todo parto tem História, tem corpo e tem Portal
Mas tem parto... ah... tem parto que a Alma transparece
A alma do Parto

É simples assim...

A Alma chega
Se acomoda
E fica... ali, quase palpável
Inteira e Presente
No parto

Dias desses foi assim

Parto Domiciliar
A mulher, entregue a seu corpo e aberta para sentir a intensidade do momento
O homem, servindo de âncora com o terreno e o espiritual
Protetor do fogo, da água e do ninho
Um tambor, um canto e um carinho
A equipe silenciosa. Olhar atento mas discreto. Técnica minimalista mas precisa.
E a alma ali. Quase sorrindo.

Parto tem cheiro e tem som
Esse tinha cheiro de amanhecer
E barulho de água fervendo e cachoeira

Às vezes, parto tem muito gemido
Às vezes, tem música
Às vezes, tem silêncio
Esse parto teve história... do primeiro beijo
Da conquista e de sonhos

A alma gosta de histórias

Foi um parto rápido, suave e leve

Penso cá comigo que a Alma gostou tanto quanto eu
De estar ali, presente, reverenciando o Nascimento

sábado, 3 de agosto de 2019

Ervas Daninhas

Não tem jeito
A poeira volta
A louça suja
Ervas daninhas crescem
Não tem como evitar
A gente pode tentar esconder, camuflar ou até não ligar
Fato é que essas coisas existem
Na Casa
Na Vida
Nos Relacionamentos
E vez ou outra a gente se incomoda e
Ou reclama
Ou esbraveja
Ou chora
Ou limpa
Tenho aprendido cada vez mais a sentir vontade (e prazer) em limpar
Hoje foi assim


domingo, 19 de maio de 2019

A gente está em reforma



Há algum tempo
Reforma que o tempo pede
Pelo uso cotidiano
Pelo desgaste natural

A gente está em reforma

Viver tem disso
Conviver tem mais ainda
Do tempo passar
Do usar
Do transformar
Do ser preciso reinventar

A gente está em reforma

Há algum tempo
Vendo o tempo passar
Juntos
E a necessidade de transformar
Juntos
O que o tempo mudou
O que já não é
Para deixar vir
O que ainda queremos ter/ser
Juntos

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

O Chapéu Violeta

Aos 3 anos:
Ela olha pra si mesma e vê uma rainha.
Aos 8 anos:
Ela olha para si e vê Cinderela.
Aos 15 anos:
Ela olha e vê uma freira horrorosa.
Aos 20 anos:
Ela olha e se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, decide sair mas, vai sofrendo.
Aos 30 anos:
Ela olha pra si mesma e vê muito gorda, muito magra, muito alta, muitobaixa, muito liso muito encaracolado, mas decide que agora não tem tempo pra consertar então vai sair assim mesmo.
Aos 40 anos:
Ela se olha e se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, mas diz: pelo menos eu sou uma boa pessoa e sai mesmo assim.
Aos 50 anos:
Ela olha pra si mesma e se vê como é. Sai e vai pra onde ela bem entender.
Aos 60 anos:
Ela se olha e lembra de todas as pessoas que não podem mais se olhar no espelho. Sai de casa e conquista o mundo.
Aos 70 anos:
Ela olha para si e vê sabedoria, risos, habilidades, sai para o mundo e aproveita a vida.
Aos 80 anos:
Ela não se incomoda mais em se olhar. Põe simplesmente um chapéu violeta e vai se divertir com o mundo.
Talvez devêssemos por aquele chapéu violeta mais cedo!
Trecho de um texto de Erma Bombeck, escrito quando ela descobriu que estava morrendo de câncer.

Em novembro do ano passado descobri que estava com um cancêr basocelular na testa e precisava retirá-lo. O diagnóstico veio certeiro de um médico experiente.
Antes da cirurgia me abri para outros recursos de curas, passei por consulta e tratamento antroposófico, espiritual e xamânico
Busquei auxílio nos amigos para ajudarem a me espelhar o que eu precisava enxergar em mim mesma, afinal, o que eu não estava vendo?
Reconheci e aceitei mais um processo de troca de pele... alguns sentimentos precisavam romper a superfície da casca
Aceitei a falta de controle e o estresse
Compreendi que algumas histórias vem de longe... de tão longe que a gente nem lembra.. mas continuam a rondar nosso entorno, nossa alma, nosso coração e nosso corpo físico
E exatamente no dia do meu aniversário de 39 anos, fiz a cirurgia com a sensação de que eu já tinha compreendido o que a ferida queria me mostrar
E uma semana depois, o resultado da biopsia, contrariando a certeza do dermatologista e da cirurgia, veio negativo. Não havia mais câncer. Só gratidão.
Ganhei uma nova cicatriz e finalmente comprei um chapéu, como eu já queria há algum tempo. Vermelho... mas poderia ser roxo, azul, amarelo... A desculpa era proteger a cicatriz, mas a verdade, é que eu queria usar o "meu chapéu violeta" antes mesmo dos 40...
E pensando bem esse chapéu pode até nem ser um chapéu, pode ser um coque ou um cabelão bem solto e armado... que eu amo cada vez mais
Sei que sou grata a Vida, ao que tenho vivido e aprendido, e estar cada dia mais aberta para receber e ler os sinais do Universo
Penso mesmo que a vida é de uma belezura sem fim, mas é curta, breve e intensa e cabe a nós aprender a saborea-la a cada instante. E a gente só pode contar mesmo com o agora.
E você? Com qual chapéu que sair hoje?










terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Diferenças entre Educação Autodirigida e Educação Progressista

Diferenças entre Educação Autodirigida e Educação Progressista

A tendência no futuro será a Educação Autodirigida, não a educação progressista



Postado originalmente em 27/07/2017
Por Peter Gray, professor pesquisador da Universidade de Boston e autor dos livros Free to Learn e Psychology




Traduzido por Luís Gustavo Guadalupe Silveira, membro da equipe da Casa da Árvore 


Como os leitores do meu blog bem sabem, sou um defensor da Educação Autodirigida. Minhas pesquisas, e de outros autores, me convenceram de que a Educação Autodirigida funciona, é totalmente viável e causa muito menos problemas para todos se comparada ao sistema de educação coercitiva que consideramos ser o “padrão.” Educação Autodirigida, com letras maiúsculas, é o termo que está sendo cada vez mais usado para nomear a prática educacional de pessoas que se denominam “desescolarizadas” ou que frequentam escolas ou centros de aprendizagem especialmente projetados para promover a autodireção, sem currículos impostos, tais como as escolas democráticas do modelo Sudbury, Agile Learning Centers e algumas escolas que se denominam “escolas livres” (Gray, 2017).

Descobri que quando falo de Educação Autodirigida, algumas pessoas equivocadamente acreditam que estou tratando de educação progressista. A Educação Progressista compartilha muitos dos objetivos da Educação Autodirigida e seus defensores muitas vezes usam a mesma linguagem, mas os fundamentos filosóficos são bem diversos e a metodologia é bem diferente. A seguir, irei revisar os princípios básicos da educação progressista, depois revisar os da Educação Autodirigida e, por fim, explicar porquê eu acho que a última e não a primeira irá se tornar o padrão educacional num futuro não muito distante.

Educação Progressista
Educação Progressista é o termo que geralmente se aplica a um movimento de reforma educacional que começou no final do século XIX, mais ou menos na época em que a escola se tornou obrigatória na maioria dos Estados dos EUA, crescendo e se retraindo pelo menos duas vezes desde então. O período entre 1890 e 1940 testemunhou o surgimento de ideias progressistas na educação, o nascimento de muitas escolas particulares progressistas e alguns esforços combinados para trazer essas ideias até as escolas públicas. O principal filósofo da educação progressista na época, pelo menos nos EUA, era John Dewey. Outros dos primeiros pensadores progressistas na educação foram Rudolf Steiner (1869-1925) e Maria Montessori (1870-1952), cujas tradições sobrevivem, respectivamente, nas escolas Waldorf e Montessori.[1] Ideias educacionais progressistas tenderam a desaparecer com a Segunda Guerra Mundial e o pós-guerra, ressurgiram nos anos 1960 e 70 e de modo geral estão enfraquecendo desde os anos 1980. Todavia, atualmente a educação progressista está reaparecendo em algumas escolas que trabalham com aprendizagem baseada em projetos.

Educadores progressistas normalmente enfatizam o aprender fazendo, o aprendizado contextualizado relevante para as experiências reais dos estudantes, pensamento crítico, compreensão profunda em lugar de memorização, trabalho em grupo e colaboração em lugar de competição, avaliação baseada em produtos mais do que em provas, promovem responsabilidade social, atitudes democráticas e uma preocupação com justiça social. Geralmente falam de “educar integralmente a pessoa” e sobre uma educação “centrada no estudante” em oposição àquela meramente centrada nos conteúdos. Professores progressistas devem conhecer a individualidade de todos os seus estudantes e trazer à tona o melhor de cada um.

O site da Progressive Education Network (uma organização sem fins lucrativos fundada em 2009 como parte de uma tentativa de reviver a educação progressista) declara, como sua missão, que: “A educação deve (a) ampliar a voz, a participação, a consciência e o intelecto dos estudantes para criar um mundo equânime, justo e sustentável; (b) encorajar a participação ativa dos estudantes em sua aprendizagem, em suas comunidades e no mundo; (c) atender às necessidades do desenvolvimento dos estudantes e focar em seu desenvolvimento social, emocional, intelectual, cognitivo, cultural e físico; (d) honrar e nutrir a curiosidade natural dos estudantes e seu desejo inato de aprender, estimulando a motivação interna e a descoberta da paixão e do propósito; (e) explicitar os interesses, experiências, objetivos e necessidades dos diferentes indivíduos, fomentando empatia, comunicação e colaboração em meio à diferença; e (f) promover relações respeitosamente colaborativas e críticas, entre estudantes, educadores, pais/guardiões e a comunidade.”

Alfie Kohn, um dos principais defensores da educação progressista atualmente, afirmou (aqui) que as escolas podem ser classificadas como mais ou menos progressistas à medida que elas estiverem comprometidas (a) em dar atenção à criança como um todo, não apenas aos aspectos acadêmicos; (b) com a comunidade; (c) com colaboração; (d) com a justiça social; (e) em estimular a motivação interna; (f) com a compreensão profunda; (g) com aprendizagem ativa; e (h) em levar as crianças a sério.

Educadores progressistas tendem a ver a educação como um esforço colaborativo entre os estudantes e seu professor. Uma boa parte da iniciativa vem dos estudantes, mas os professores são responsáveis por guiar essa iniciativa de forma produtiva. Os interesses internos de cada criança têm um grande papel, mas o professor “alimenta” ou mesmo “traz à tona” os interesses da criança. A brincadeira é vista como parte do processo de aprendizagem, mas o professor guia e interpreta essa brincadeira de maneiras planejadas para garantir a realização de certos objetivos educativos.

Educação Autodirigida
Defensores da Educação Autodirigida, como os da educação progressista, enfatizam que a educação é muito mais do que apenas aprendizado acadêmico. O site da Alliance for Self-Directed Education define educação como a soma de tudo que uma pessoa aprende que permite a ela viver uma vida satisfatória e significativa. Isso poderia incluir autoconhecimento, habilidades de planejamento e direcionamento das próprias atividades, habilidades para se relacionar bem com outras pessoas e compreensão do mundo a sua volta suficiente para transitar efetivamente nesse mundo. Muitos educadores progressistas iriam concordar, acredito, com esse tipo de definição de educação.

A diferença entre educação progressista e Educação Autodirigida está no entendimento de como tal educação da pessoa-como-um-todo acontece. Para o educador progressista, ela surge da colaboração entre a criança e um professor bondoso e extraordinariamente competente, que canaliza gentilmente a energia da criança e molda suas ideias em formas que, a longo prazo, servem ao bem da criança e da sociedade. Para o defensor da Educação Autodirigida, a educação surge a partir do impulso natural da criança em conhecer a si mesma e ao mundo em que vive e usar todos os recursos disponíveis em seu ambiente, incluindo pessoas sábias e habilidosas, para alcançar esse fim.

Para o defensor da Educação Autodirigida, é a inteligência da criança, não a do professor, que possibilita uma educação bem-sucedida. A tarefa dos adultos que facilitam a Educação Autodirigida é menos pesada que a dos professores na educação progressista. Na Educação Autodirigida, os adultos não precisam ter grandes conhecimentos sobre cada assunto que o estudante possa querer aprender, não precisam entender os mecanismos internos da mente de cada criança, e não têm que ser mestres em pedagogia (o que quer que isso queira dizer). Ao contrário, eles apenas precisam se certificar de que a criança está num ambiente que permite que seus instintos naturais de aprendizagem operem efetivamente. Como eu havia argumentado em outros lugares (aqui e aqui), este é um ambiente no qual a criança (a) tem tempo e liberdade ilimitados para brincar e explorar; (b) tem acesso às ferramentas mais úteis de sua cultura; (c) está imersa numa comunidade cuidadosa de pessoas de diversas idades, com diferentes habilidades, conhecimentos e ideias; e (d) tem acesso a alguns adultos dispostos a responder perguntas (ou tentar responder) e a fornecer ajuda quando esta for solicitada. É esse o tipo de ambiente encontrado em escolas ou centros de aprendizagem projetados para a Educação Autodirigida e também o tipo de ambiente que famílias desescolarizadas bem-sucedidas oferecem para suas crianças.

A educação, nesta perspectiva, não é resultado da colaboração entre o estudante e um professor; mas é de inteira responsabilidade do estudante. Enquanto educadores progressistas continuam a considerar que é sua responsabilidade garantir que os estudantes adquiram certos conhecimentos, habilidades e valores, e avaliar o progresso dos estudantes, os facilitadores da Educação Autodirigida não veem isso como sua responsabilidade. Enquanto a educação progressista representa um continuum com a educação tradicional, a Educação Autodirigida representa uma ruptura completa com a abordagem tradicional.

Gostaria aqui de apresentar uma distinção, que não foi explicitada antes (nem mesmo em meus próprios escritos), entre Educação Autodirigida, com letras maiúsculas, e educação autodirigida, em minúsculas. Proponho que Educação Autodirigida seja usada para se referir à educação de crianças em idade escolar, cujas famílias tomaram uma decisão deliberada de que as crianças vão educar a si mesmas ao seguirem seus próprios interesses, sem serem sujeitadas a um currículo imposto, seja dentro ou fora da escola. Além disso, proponho que a educação autodirigida, em letras minúsculas, seja usada de uma maneira mais geral para se referir a algo que todo ser humano faz o tempo todo em suas vidas. Estamos todos, constantemente, nos educando a nós mesmos enquanto buscamos nossos interesses, ganhamos a vida e batalhamos para resolver nossos problemas cotidianos. A maior parte do que nós conhecemos – independentemente do tempo de escolarização que tivemos – veio da educação autodirigida.

Aqueles que buscam uma Educação Autodirigida estão, com efeito, dizendo que a educação autodirigida (em minúsculas) é tão poderosa e efetiva que as crianças não precisam absolutamente de uma educação imposta, se lhes for oferecido um ambiente que otimize sua habilidade de educar a si mesmas. Realmente, muitos estão dizendo que uma educação imposta interfere na educação autodirigida por consumir muito tempo da criança, transformando a aprendizagem em algo desagradável e plantando nas mentes das crianças a ideia de que elas não são capazes de controlar sua própria educação.

Porquê Eu Penso que a Educação Autodirigida, Não a Educação Progressista, Vai se Tornar o Padrão de Educação no Futuro
Admiro os educadores progressistas. Sem exceção, todos que eu conheci são boas pessoas que se preocupam profundamente com as crianças e querem melhorar suas vidas. Eles veem os danos causados por nosso sistema de ensino tradicional e querem fazer algo a respeito. Neste exato momento, educadores progressistas estão na linha de frente dos esforços para reduzir os deveres de casa (para que as crianças tenham uma vida fora da escola), trazer de volta o recreio, reduzir ou eliminar testes padronizados e permitir que os professores sejam mais flexíveis e sensíveis às necessidades das crianças em sala de aula. Estão travando uma batalha difícil, e os admiro por isso. Mas é uma batalha tão antiga quanto a escolarização compulsória. É uma batalha que ajuda a moderar os excessos da educação tradicional; mas é incapaz de derrotá-la, pois aceita muitas das crenças tradicionais sobre como a educação deve ser.

Enquanto os professores acharem que é sua tarefa garantir que as crianças aprendam certas coisas, em momentos específicos de seu desenvolvimento, então não importa quão progressista seja seu pensamento, eles terão que usar métodos coercitivos para obrigar as crianças a aprender. As crianças, por natureza, não desenvolvem interesses semelhantes ao mesmo tempo, então é impossível atuar numa sala de aula típica, com mais de um grupo de estudantes, acreditando que todos eles vão aprender o que está no currículo apenas fazendo aquilo que lhes interessa.

Ouso dizer que a maioria dos professores novatos, saídos de faculdades de educação, começam a trabalhar pensando que vão ser educadores progressistas. Escolhem dar aulas, no fim das contas, porque amam crianças; e em suas aulas de pedagogia, muitas, senão todas, as filosofias educacionais que leram e das quais ouviram falar eram progressistas – sobre guiar, estimular e facilitar, não sobre coagir. Mas daí eles entraram no mundo real das salas de aula. Lá, eles cuidam de trinta crianças, têm que manter a ordem e fazer algo para parecer que o aprendizado está acontecendo; e suas ideias progressistas logo voam pela janela. Não é nenhuma surpresa que as escolas que trabalham mais em sintonia com os princípios progressistas sejam particulares e muito caras. Elas exigem classes pequenas, poucos estudantes por professor, e profissionais altamente competentes e dedicados.

Mesmo os defensores mais fervorosos da educação progressista admitem que uma das razões pelas quais a educação progressista não decolou é o fato de ela ser tão exigente com os professores. Aqui, por exemplo, vemos o que Alfie Kohn tem a dizer sobre isso: “Ela [a educação progressista] é muito mais exigente com os professores, que precisam saber sua matéria de cabo a rabo se querem que os estudantes ‘compreendam biologia ou literatura’ em vez de ‘simplesmente memorizar a anatomia de um sapo ou a estrutura de uma frase.’ Mas os professores progressistas também têm que saber muito de pedagogia, pois nenhuma quantidade de conhecimento específico (por exemplo, ser especialista em ciência ou inglês) vai dizer como facilitar a aprendizagem.” Acrescente a isso a ideia de que os professores devem conhecer todos os seus alunos individualmente e ajudá-los a desenvolver seus potenciais e seus próprios interesses, e você vai começar a entender por que a educação progressista não substituiu a educação diretiva do ensina-e-testa como modelo predominante.

Educadores progressistas frequentemente citam Rousseau como um dos primeiros pensadores dessa abordagem. A única obra de Rousseau sobre educação foi seu livro Emílio, publicado em 1760, que apresenta o relato fictício da educação de uma criança. Se esse livro tivesse qualquer aplicação no mundo real, seria na educação  de um príncipe. O professor de Emílio é um preceptor, cujo único trabalho, única missão na vida, é educar apenas esse menino, numa taxa de professor/aluno de um para um. O preceptor, de acordo com a descrição de Rousseau, é  uma espécie de super-herói. Ele não apenas sabe muito sobre todos os assuntos, mas entende Emílio completamente, mais do que seria humanamente possível (eu diria). Ele conhece todos os desejos do menino, a todo momento, e sempre sabe exatamente qual estímulo oferecer para aumentar os benefícios educacionais que resultarão das ações do menino a partir desses desejos. Assim, o preceptor cria um ambiente no qual Emílio está sempre fazendo apenas o que quer, e ainda aprende exatamente as lições que seu preceptor habilmente preparou para ele.

Acredito que se mais educadores realmente lessem o Emílio, em vez de apenas citá-lo, reconheceriam o erro básico da teoria educacional progressista. Ela exige demais dos professores para ser aplicável em qualquer tipo de larga escala, e ela faz suposições irreais sobre a previsibilidade e obviedade das motivações e dos desejos humanos. [Para minha análise do Emílio, ver aqui.] Na melhor das hipóteses, em larga escala, a educação progressista pode apenas ajudar a aliviar a dureza dos métodos tradicionais e adicionar um toque de autodireção e criatividade à vida dos estudantes.

Diferente da educação progressista, a Educação Autodirigida é barata e eficiente. A Sudbury Valley School, por exemplo, que está se aproximando do seu aniversário  de 50 anos[2], funciona com um orçamento por estudante que é menos da metade daquele das escolas públicas locais (para saber mais sobre essa escola, ver aqui e aqui). Um grande número de adultos por estudante não é necessário, pois a maior parte da aprendizagem dos estudantes não vem de sua interação com os adultos. Neste ambiente de mistura de idades, estudantes mais novos estão constantemente aprendendo com os mais velhos, crianças de todas as idades praticam habilidades essenciais e experimentam ideias em suas brincadeiras, explorações, conversas e buscas dos interesses que tenham desenvolvido. Por iniciativa própria, elas também usam livros e, no mundo de hoje, a internet para adquirir o conhecimento que estão buscando a qualquer hora.

A crítica mais comum à Educação Autodirigida é que ela não funciona, ou só funciona para certas pessoas, muito automotivadas. De fato, educadores progressistas frequentemente são rápidos em marcar a distinção entre sua visão e a Educação Autodirigida, pois não querem que sua proposta seja confundida com ideias que eles consideram “românticas” ou “malucas” e impraticáveis. Por exemplo, tenho quase certeza de que Alfie Kohn tinha a Educação Autodirigida em mente quando escreveu (aqui novamente): “Nessa versão caricata da tradição, as crianças são livres para fazer tudo o que quiserem, o currículo consiste em coisas divertidas (o que não for divertido está fora). Espera-se que a aprendizagem ocorra automaticamente enquanto os professores ficam de lado, observando e sorrindo. Falta espaço aqui para oferecer exemplos dessa deturpação — ou uma apresentação completa das razões por que isso é tão profundamente errado — mas confie em mim: as pessoas realmente zombam da ideia de uma educação progressista baseadas em uma imagem que tem muito pouco a ver com a educação progressista.”

A caricatura de Kohn da Educação Autodirigida não é muito correta — pois as crianças escolhem regularmente, por conta própria, fazer coisas que não são divertidas a curto prazo e porque membros da equipe não ficam apenas ao lado observando e sorrindo; mas, ainda sim, essa caracterização não está completamente errada. E essa educação funciona. Não precisa acreditar em mim; leia e trate com desconfiança as evidências. Estudos que acompanharam formandos de escolas de Educação Autodirigida e jovens desescolarizados mostraram que as pessoas, que se educaram seguindo seus interesses estão se saindo muito bem na vida. Você pode ler muito mais sobre isso em posts anteriores desse blog[3], em vários artigos acadêmicos (p.e., aqui, aqui e aqui) e em meu livro Free to Learn.

A Educação Autodirigida funciona porque somos naturalmente projetados para ela. Ao longo de essencialmente toda a história humana, crianças educaram a si mesmas explorando, brincando, observando e ouvindo outras pessoas, descobrindo e buscando seus próprios objetivos na vida (p.e., aqui e GRAY, 2016). Em uma extensa revisão da literatura antropológica sobre educação em diversas culturas, David Lancy (2016) concluiu que a aprendizagem — incluindo a aprendizagem abarcada pela educação — é natural para os seres humanos, mas ensinar e ser ensinado, não. A citação de Winston Churchill segundo a qual “Eu sempre gostei de aprender, mas nem sempre gostei de ser ensinado” é algo que qualquer pessoa, em qualquer época ou local, poderia ter dito.

Os instintos educacionais das crianças ainda funcionam perfeitamente, em nossa sociedade moderna, desde que sejam fornecidas as condições que possibilitem sua realização. Os mesmos instintos que motivaram crianças caçadoras-coletoras a aprender a caçar, coletar e fazer tudo que precisavam para serem adultos competentes motivam as crianças em nossa sociedade a aprender a ler, calcular, usar computadores e fazer tudo que precisam para se tornarem adultos competentes (ver GRAY, 2016). A Educação Autodirigida é tão natural, tão mais prazerosa e eficiente para todos do que a educação coercitiva, que parece inevitável para mim que ela voltará a ser a rota educacional predominante.

A escolarização coercitiva tem sido um pequeno desvio na história humana, projetada para servir aos fins temporários que surgiram com a industrialização e a necessidade de eliminar a criatividade e o livre-arbítrio (veja aqui). Agora, a escolarização coercitiva está num processo de autodestruição, numa espécie de último suspiro. Uma vez que as pessoas descubram que a Educação Autodirigida funciona, e não causa o estresse e os danos da escolarização coercitiva, e começarmos a direcionar uma parte dos bilhões de dólares que são gastos atualmente na educação coercitiva para prover os recursos para que a Educação Autodirigida chegue a todas as crianças, a Educação Autodirigida vai se tornar novamente a rota educacional predominante. Então, poderemos abandonar as letras maiúsculas. E então não precisaremos mais que a educação progressista suavize os duros golpes da educação coercitiva.

   
NOTAS

1. No Brasil, Paulo Freire (1921-1997) é o principal representante da     Pedagogia Progressista Libertadora. Outro nome importante no Brasil ligado à Pedagogia Progressista é  o do educador português José Pacheco (1951-), responsável por iniciativas como a Escola da Ponte, em Portugal, e o Projeto Âncora, no Brasil (NT).
2. Em 2018, a Sudbury Valley School completou 50 anos (NT).


REFERÊNCIAS

GRAY, Peter. Children’s natural ways of learning still work — even for the three Rs.  In: GEARY, D. C; BERCH, D. B. (ed). Evolutionary perspectives on child development and education. New York: Springer, 2016. p. 33-66.

GRAY, Peter. Free to Learn. New York: Basic Books, 2013.

LANCY, David.  Teaching: natural or cultural?  In: GEARY, D. C; BERCH, D. B. (ed). Evolutionary perspectives on child development and education. New York: Springer, 2016. p. 67-93.