sexta-feira, 20 de agosto de 2021

O dia em que eu consegui mudar o Mundo


Como será que anda a minha maternagem? Nossa escolha familiar ainda continua sendo por toda restrição social "desnecessária". Sendo assim, nada de encontros sociais, amigos, passeios, etc. Aulas só online!!!

Yuri foi selecionado pela escola de programação para participar pelo terceiro ano consecutivo da Olimpíada Brasileira de Informática. A primeira fase, municipal, foi online e ele passou para a fase Estadual.

Daí, dois dias atrás, a escola nos informou que a prova que será realizada amanhã, teria que ser realizada obrigatoriamente na escola, sem outra opção. Assim, entramos no dilema de tentar decidir se o Yuri participaria, considerando o contexto e  nossas escolhas de cuidado e o desejo de participar. Tudo nos levava a optar pela desistência de sua participação.

Então, ontem, inconformada pela falta de opção, decidi procurar as regras da Olimpiada. Entrei no site oficial da Unicamp e, adivinha? No site havia uma nota em que a organização, apesar de inicialmente ter tentado fazer tudo no modelo presencial, voltava atrás (devido às altas taxas de covid) e permitia a realização das provas também em casa, deixando a critério de cada escola decidir como realizaria. Escrevi na hora para a escola do Yuri, com o link da Olimpíada e pedindo que reconsiderassem a participação dele sem ser presencial. E agora a tarde veio a resposta, permitindo assim que todos que desejem fazer de casa, possam participar. 

Ao ler a resposta fui tomada pela emoção. Não somente pelo fato de ele poder realizar a prova... porque ele ja estava conformado em não participar e tal... a emoção foi muito além. 

Uma emoção de MÃE!!! 

Emoção de mãe que pôde ensinar ao filho a possibilidade de não aceitar qualquer informação, regra, imposição sem fundamento e... poder questionar, tentar entender, ir atrás de mais fontes, de mais explicações quando incomodado... e... ao encontrar fundamentos ou informações, usá-las para embasar e transformar a situação...

Amanhã ele fará a prova, aqui de casa, e esse é o melhor prêmio para mim.

Emoção de mãe que  mostra ao filho que é possível mudar o Mundo.






sexta-feira, 28 de maio de 2021

A Grade


Em menos de uma semana você vai completar 11 anos. Minha filha caçula. O corpo já denuncia que você já não é mais tão criança, embora a possibilidade de crescer e se transformar ainda lhe cause resistência e estranhamento...

e eu achando que a resistência era só sua... Essa semana vivemos algo não planejado mas que agora me pareceu bem simbólico... Sua cama tinha uma grade. Daquelas para crianças pequenas não caírem. Colocamos quando arranjamos uma cama nova. Antes você dormiu quase um ano no colchão no chão (muitas vezes rolava e acordava fora dele) e, antes, dormia em uma cama-carruagem que tinha "beiradas"... Você sempre se mexeu muito dormindo e tem o sono pesado. Já caiu da cama mais de uma vez em viagens. Enfim, para mim, a grade te protegia. Final do ano passado, você começou a pedir para que tirássemos a grade. Seu pai totalmente de acordo. Mas eu resisti. Com medo de vc se machucar. "Do chão não passa", seu pai sempre alegava. Eu apelava para a pandemia e convecia vocês dois de que não era hora de machucar e nem correr o risco de precisar de um hospital. Foram vários pedidos e eu convicta de que ainda não era a hora...

Há dois dias você novamente me pediu para não colocar a grade na hora de deitar.... e repentinamente... meu coração aceitou.... sem aquele medo e preocupação (claro que coloquei o pufe do lado por garantia... mas foi só). Demorei um tempo para ter tranquilidade para aceitar que a grade não era mais necessária. Você foi paciente comigo embora persistente e insistente na sua forma de me mostrar que cresceu. Minha menininha cresceu. Feliz crescimento e transformação!!! Que a gente possa juntas lidar com nossos medos e que tenhamos coragem de tirar as grades já não são mais tão necessárias.
Um beijo de sua mãe orgulhosa

                                                                                                    
                                                                                                                 (texto de 28/05/2021)







 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Rito de passagem

Hoje, no começo da tarde, enquanto nós quatro cumpríamos a nossa tarefa semanal de toda sexta-feira desde início da pandemia (lavar a área externa de nossa casa), aconteceram dois fenômenos com Yuri (13 anos).

Fenômeno 1 (lado infantil): Yuri começa a dançar e brincar enquanto ensaboava o chão e de repente leva um baita tombo. Além do orgulho, bate o queixo no chão e a perna, mas sem cortes ou sangue. O pai arruma uma bolsa de gelo e ele coloca no queixo.

Fenômeno 2 (lado adulto): Enquanto segura a bolsa de gelo, Yuri vira para o pai e pergunta, assim como quem pede para passar o sal na hora do almoço: "Como faz para tirar meu bigode?" O tal bigode que apareceu em meados do ano passado e ainda é uma penugem. O pai tranquilamente diz que vai lhe mostrar. Meu coração acelera em um misto de orgulho, susto, emoção. 

E, no meio da tarde, vejo ele e o pai no banheiro. O pai lhe apresentando os instrumentos, Yuri atento e tranquilo. 

Eu me lembrando de uma cena de uns 10 anos atrás, ambos no banheiro, Yuri brincando de imitar o pai, com uma tatuagem de mentira igualzinha a dele.

Foi assim, no meio de uma tarde nublada, última sexta-feira das férias dele antes do retorno às aulas (ainda online), que ele atravessou um dos portais para a vida adulta. Sob a orientação assertiva do pai e a emoção e curiosidade da mãe - que se policiou bastante para não invadir (muito) um espaço sagrado masculino. 

Felizes novas descobertas e transformações para meu filho adolescente! Que seu pai seja sempre seu reflexo de masculino presente, aberto, cuidadoso e ético. 










quarta-feira, 13 de maio de 2020

Pedaço de Universo



Ainda há tempo... porque a maternidade é uma ação e atitude diária e ininterrupta que nos consome e nos embala a todo momento... eis o maior presente dessa semana... feito espontâneamente por minha filha para mim em um dia qualquer da semana que passou... "um pedaço do Universo"... é isso que ser mãe significa para mim... ter a honra de gerar, criar e acompanhar pedaços de Universos. Grata meus filhos por me ofertarem essa experiência.

(Texto de 13/05/2019)

sábado, 9 de maio de 2020

Café de Mãe



Cena 1 - Ela tomava café preto todos os dias. Eu não entendia o porquê dela beber algo tão forte.

Eu era pequenina
Ela quase não ficava em casa
Precisava salvar o Mundo
Minha mãe tem uma identidade secreta
Ela é uma super-heroína

Eu me lembro de acordar
Com um copo de chocolate quente
Feito e entregue amorosamente por ela
Café da manhã na cama
Todos os dias

E me lembro dela penteando meu cabelo
E dizendo que ele era lindo
Assim todo cacheado e solto
Eu reclamava, ela elogiava
E desembaraçava, prendia, trançava

Cena 2 - Ela tomava café preto todos os dias. Eu começava a achar o cheiro bom e a me interessar pelo ritual.

Eu já não era tão pequenina
Ela nunca parava e relaxava
Eu comecei a me interessar por esse Mundo
Que ela salvava todos os dias
Ela me ensinou como olhar além

Eu me lembro dela vigiar de longe
Com quem eu andava, aonde queria ir
E me acolher nas primeiras dores de amores
Eu já entendia seu cansaço
E ria dela dormir vendo filme na sala

Ela comprava as minhas roupas
Eu crescia e já era maior do que ela
Muito mais curvas e volumes
No seu espelho, eu sempre fui Linda
Ela me ensinou a me amar

Cena 3 - Ela precisou diminuir o café preto de todos os dias. Eu não vivo sem café.

Eu não sou nada pequenina
Ela continua salvando o Mundo
Às vezes nos encontramos nas aventuras
Mas ainda preciso de sua ajuda
É ela quem me salva de algumas enrascadas

Ela me liga todo dia
E apesar de quase não parar em casa
(a não ser agora na quarentena)
É e sempre foi meu porto seguro
estando sempre presente e constante

Ela é mãe coruja de três e avó de seis
Isso requer dividir sua atenção e colo a todo instante
Mas temos um ritual que é só nosso
Meu e dela (e da minha avó, agora só em coração)
O nosso momento do café. Juntas.



terça-feira, 28 de abril de 2020

Um brinco e o rumo da História


Seria uma simples foto
Não fosse tudo que é.


Essa foto. Esse dia. Esse brinco.

Eu ainda não sabia.
Mas os rumos de minha vida estavam, ali, mudando de direção.
Por outro lado,
Eu e muita gente sabíamos.
Que os rumos políticos do Brasil estavam, ali, mudando de direção.
Só não sabia, e nem conseguia imaginar
o quanto ainda poderia piorar.

Era um brinco.
Mas era muito mais.
Era desejo, vontade, engajamento, história e escolha.
Eu escolhi, desde muito pequena, um lado da história.
Sempre soube que existem várias versões e pontos de vista.
Me identifico mais com lado mais marginalizado, com a consciência de ser privilegiada
Meus "méritos" nunca foram só meus
Vieram com manchas de sangue, fome e violência de outrem.
Isso me sensibiliza e me faz lutar
Por um Mundo diferente.

Estar ali, com aquele brinco, foi uma escolha.

Eu, de brinco.
E tiraram uma foto.
De mim. Do brinco.
Espalharam a foto.
E dizem que foi aí que tudo começou.
Brincadeira! Ela é perigosa! Olhem o brinco!
Me afastaram do meu trabalho.
Com força. Com raiva. Com assédio.
Era só um brinco.
Mas era muito mais.

Eu, de brinco.
Desde pequena.
Em casa. Com amigos. No trabalho.
Brinco de me arriscar a ser o que acredito.
Não me arrependo.
Conseguiram me abalar, me fragilizar, me chacoalhar.
Ainda sofro com a perseguição política.
Eu, resisto.

E, olhando essa foto hoje, depois de tudo, ainda me orgulho, do brinco.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Coração de Mãe ou Voa Passarinhos

"São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração"

E veio a força de março
e vieram os vendavais da vida 
"tudo novo de novo"

A gente reformou nossa casa ano passado
Ficamos 11 meses fora dela
Foi uma reforma grande, externa e INTERNA
Final do ano passado, voltamos para a "nova" casa
e já não era mais a mesma
e já não éramos os mesmo
Voltamos outros para dentro do ninho
Nos aconchegamos em novas camas
e olhamos por novas janelas
mais abertas e arejadas
Nos re-conhecemos

Nesse processo de readaptação
estou me redescobrindo MÃE
e descobrindo o adolescer dos meus filhos
Eles estão enormes
Não sei mais tudo que eles sentem e pensam
Eles já conhecem tantos Universos
Eles já se viram tanto para quase tudo

Passadas as tranquilas férias em família
Um furacão interno me tirou o chão
Uma angústia. Uma necessidade de mudar o rumo
Joguei a bomba para o Gu: Quero voltar os meninos para a Escola Tradicional
Achei que a bomba ia nos estilhaçar
Achei que ele nunca ia me perdoar
Achei que ele me ignoraria
E o que ele fez???
Ele me deu a mão
Ele me disse: Vamos lá!
Ele me tranquilizou: vai dar tudo certo

Uma grande decisão
Muitas reflexões e partilhas entre nós dois
Muitas lembranças e conexões
A gente sonhou junto um novo lugar
Ele construiu esse sonho e eu acreditei e continuo acreditando
Ele, o alicerce e a força da ação
Eu, a fluidez e a força de criação
Vivemos isso seis anos atrás 
vivemos isso nesse período da reforma
E estamos vivendo agora, nesse novo caminhar
Um retorno? 
Penso que não
Um novo começo
Mais uma aventura
E uma história incrível e única na bagagem


Hoje é O PRIMEIRO DIA de uma nova etapa de vida
Hoje está sendo o primeiro dia de aula dos meus filhos
E hoje, coincidentemente e sem eu prever, será meu primeiro dia de trabalho (fui informada ontem dessa mudança e para um local que eu nunca imaginei!)
Tudo hoje!!!
Novas promessas de Vida em nossos corações


PS:
1 - Ontem Luana foi dormir ansiosa e preocupada: "Mamãe, e se ninguém gostar de mim? E se a professora não for legal?"
Assim que chegamos na escola da Luana e a recepcionista pedia para uma funcionária nos encaminhar até a sala, um menino que bebia água já veio falando: "Ah! A sala da tia Cláudia? pode deixar que eu levo ela,  eu estudo lá" , e foi logo complementando "Pode deixar que a tia Cláudia faz tudo ficar legal, ela é o máximo!"
E eu ainda na dúvida, se era mesmo um menininho... ou um anjo que o Universo colocou ali para receber a minha filha nesse novo desafio.1
De todo jeito, grata menininho. Você não sabe como deixou esse coração de mãe mais aliviado.
2- Sou muito grata aos caminhos de amizades que a humanização do parto me deu de presente. Todo esse intenso e desafiador processo só está acontecendo assim, de forma tão "suave" (kkkkkkkkk)  porque eu encontrei uma amiga, no lugar certo, na hora certa. E está sendo o coração dela que está acalentando as minhas angústias e trazendo a amorosidade para eu confiar no processo. Grata Carol, eternamente. Sua mensagem hoje cedinho, antes de eu sair de casa, sem eu pedir, me dando apoio, me contando que os meninos seriam bem recebidos e nos desejando "bons novos começos" foi um grande abraço na minha alma.